Gra·vi·dez

Dizem que a gravidez dura nove meses. Para os especialistas, 40 semanas. E para algumas grávidas, uma eternidade. Sabemos que o tempo é elástico, e parece passar cada vez mais rápido conforme envelhecemos. Na infância, ele era dilatado: aprendemos a respirar, focar, segurar a cabeça, pegar objetos, sentar e comer nos primeiros seis meses (o que você aprendeu de tão relevante nos últimos seis meses?). Radicalizando esse pensamento, dentro da barriga da mãe, no germe, o tempo tendia ao infinito. Uma eternidade que a grávida sente, como se fosse ela o seu feto.

Um dia, minha sobrinha disse: “Mamãe engoliu um bebê”. Talvez tenha notado antes da mãe que ela estava (de fato) grávida. Em “Sobre as teorias sexuais das crianças” (1908), Freud afirma que começamos a pesquisar a sexualidade a partir da pergunta primordial “de onde vêm os bebês?”, já que a história da cegonha não nos convence. Segundo ele, um dos equívocos clássicos das teorias infantis é a crença de que o bebê surge na barriga da mãe a partir de alguma coisa que ela come, e é expelido como um excremento.

Os franceses dizem sem cerimônia: gravidez é “grossesse”, derivado de “grosse”, feminino de “gordo”. O efeito de comer e engravidar é o mesmo. Já a mulher “enceinte”, grávida, está cingida, cercada por um cinto. Tanto o inglês “pregnant” quanto o português “prenhe” vêm do latim “praegnas”, que significa algo como “antes de ter nascido” ou “antes de ter dado à luz”. Assim que “imprægnare” é “emprenhar” em latim. O que está “impregnado” está cheio de alguma coisa, como a barriga da grávida está cheia de filho.

A nossa “gravidez” data de 1858, e é irmã da “gravidade”, ambas filhas do latim “gravis”, com vários sentidos que vão de “pesado” a “sério”. A força de atração da terra parece ainda maior quando age sobre um corpo que contém outro. A gravidade da gravidez é também a seriedade de uma notícia nem sempre simples de dar.

Análogo ao espanhol “embarazo”, temos o “embaraço”: a gravidez pode ser um nó, um estorvo, especialmente quando indesejada. Mas estar grávida é “estar de esperança”, “estar de proveito”, e a gravidez não deixa de ser um “estado interessante”. Segundo uma expressão em alemão, a grávida “carrega uma criança sob o coração”.

No poema “criação”, Ana Cristina Cesar fala em “gravidez da artista”. A gravidez costuma ser associada à criatividade. Gera-se um ser como se gera uma obra. Para isso, basta estar fértil.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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