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Jo·go

Diz que jogo é coisa de criança: pega-pega, esconde-esconde, cabra-cega. Pode ser divertido, mas nem por isso é menos sério. Tem regras, vencedor e perdedor, premiação. Pode ser colaborativo, como o frescobol. Às vezes tem aposta. Dá tanto prazer que pode virar vício. Jogo é proibido, jogo do bicho. Diz que jogo é coisa de adulto.

Em alemão, “Spielzeug”, “coisa de brincar”, é brinquedo. O verbo “spielen”, como o inglês “to play”, serve tanto para brincar e jogar como para representar, no sentido de atuar. E bem, também nós usamos a expressão “jogo de cena” no teatro. Para o filósofo alemão Walter Benjamin, o que essas atividades têm em comum é a repetição, “a transformação de uma experiência devastadora em hábito”. Em “Além do princípio do prazer”, Sigmund Freud afirma que “as crianças repetem, brincando, o que lhes produziu uma forte impressão na vida” e assim se tornam “donas da situação”.

Ainda segundo Benjamin, antes de amar alguém estranho a nós e adentrar seus ritmos, que são frequentemente “hostis”, testamos o ritmo de “coisas inanimadas”, os brinquedos, e assim nos tornamos “senhores de nós mesmos”. Ele aproxima, a partrir de Freud, o jogo do sexo, pelo seu caráter compulsivo: “toda experiência profunda deseja, insaciavelmente, até o fim de todas as coisas, repetição e retorno”.

Não à toa, jogo pode ser sinônimo de flerte, e dizemos que quem embaça o ritmo de uma relação “faz joguinho”. O jogo quer ser repetido, mas minha avó dizia que “Un bel gioco dura poco”. Jogo é combate, luta, capoeira: onde os fracos não têm vez. Diz que o importante é competir, tem gente que não sabe perder. O jogo envolve sorte e azar: “Um lance de dados jamais abolirá o acaso”, diz o poeta francês Stéphane Mallarmé.

Jogo é a agitação do mar, a oscilação do barco, um defeito no encaixe de duas peças, o movimento natural de um objeto. Jogo é o mecanismo de direção de um carro. Jogo é o conjunto de cartas que se tem na mão, ou um conjunto qualquer de objetos: jogo de facas, jogo de panelas, jogo de cama.

O jogo tem fim, mas não finalidade, um pouco como a arte. Envolve esforço e mérito, mas também é encantamento e magia. Para Giorgio Agamben, só a magia pode nos tornar felizes, e não os objetivos que alcançamos: “As crianças, como os personagens das fábulas, sabem perfeitamente que, para serem felizes, precisam conquistar o apoio do gênio da garrafa”.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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