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O·lho

Em “X”, uma das “Fotopoemações” (1974) da artista ítalo-brasileira Anna Maria Maiolino, vemos as lâminas de uma tesoura diante de seu olho, imagem que logo remete ao curta-metragem “Um cão andaluz” (1929), de Luis Buñuel. Ao fim de seu livro “História do olho” (1928), Georges Bataille diz que o olho é o órgão mais atraente do corpo, e que a sedução causada por ele chega ao limite do horror. O olho seria análogo ao corte, que causa “reações agudas e contraditórias”.

Segundo Roland Barthes, o livro de Bataille conta a história de um objeto, o olho, que vai passando “de imagem em imagem”. E esse “jogo da metáfora e da metonímia” permite que o autor transgrida “definitivamente” o sexo. De fato, Bataille cria, em sua narrativa erótica e surrealista, uma contiguidade permanente entre olho, ovo, testículos, sol, genitais e assim por diante. No filme de Buñuel, vemos o mesmo recurso: antes da fatídica cena em que o olho é cortado pela lâmina, o protagonista olha para a lua cheia, que em seguida será cortada por uma nuvem. 

A etimologia mostra que esse caráter metafórico e metonímico está na origem da palavra “olho”. Em latim, “ocŭlus” servia tanto para “olho” quanto para “qualquer objeto em forma de olho”, como o sol ou o círculo desenhado na cauda de um pavão. O termo chegou ao português no século 13, e ainda hoje serve para designar formas análogas: furo, poro, buraco, broto, miolo.

Já disse aqui que, folheando o livro “O pai dos burros”, do Humberto Werneck, notei que as palavras que mais geram lugares-comuns são as partes do corpo, talvez porque todos nós as habitemos. “Olho” está entre elas, com 41 chavões listados, e isso excluindo os clichês com “olhar”, que não são poucos.

Abra o olho, sei que você está de olho nestes óculos, mas custam os olhos da cara, e a olhos vistos não te caíram bem. Além do mais, se você não pagar o aluguel no dia vai ser mandado pro olho da rua. Esta noite não preguei os olhos, dava para ver o eclipse a olhos nus. Num abrir e fechar de olhos, desapareceu. Corri os olhos pelo livro, fiquei com os olhos marejados de lágrimas. O que salta aos olhos é que ela é a menina dos olhos do pai. Vi com estes olhos que a terra há de comer como ela o comia com os olhos, e não só com rabo de olho. Não venha com olho gordo pra cima de mim, aqui é olho por olho dente por dente.

Nos usos da língua, o olho segue como no livro de Bataille: pulando de imagem em imagem.

Sofia Mariutti 

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