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Fron·tei·ra

A fronteira pode ser natural, seguindo um acidente geográfico como um rio ou uma montanha. Às vezes é abstrata, como a margem entre a sanidade e a loucura, às vezes tem a concretude da muralha da China. No filme “Der Himmel über Berlin” — “O céu sobre Berlim”, traduzido como “Asas do desejo” no Brasil —, Wim Wenders encontra nos anjos figuras que podem voar sobre a cidade dividida, em 1987: no céu não há limite. Este texto do Nexo mostra que a Europa tem mais barreiras físicas hoje do que tinha durante a Guerra Fria, e o fenômeno tem aumentado pelo mundo: “das 51 barreiras fortificadas construídas entre países desde o fim da Segunda Guerra (1945), quase a metade (25) foi erguida entre 2000 e 2014”.

Segundo o dicionário Houaiss, a palavra “fronteira” vem do francês “frontière”, que queria dizer, a princípio, “a vanguarda das tropas militares”, em seguida a “praça fortificada que está em frente do inimigo” e por fim “os limites do território de um Estado”. Esta terceira acepção teria vindo por influência do adjetivo “frontier”, com o sentido de “limítrofe”. Tanto “frontière” quanto “frontier” derivam do francês “front” (do latim “frons”), que serve tanto para a “parte frontal da cabeça” como para a “frente de um exército”. Afronta-se quem está à frente. Mesmo na língua portuguesa o Houaiss registra, ainda hoje, o sentido antigo de fronteira como uma “expedição militar” que busca defender os confins de um território. A fronteira se limita com a guerra.

Ironicamente, chamamos de “fronteiras vivas” aquelas que estão sujeitas a conflitos e se alteram, diferentemente das “fronteiras mortas”, que são sólidas. Para o líder indígena Ailton Krenak, no Brasil há fronteiras fluidas entre mundos em guerras, mas essas fronteiras não são feitas apenas de conflito. São também “possibilidade de interpenetração de mundo”. A fronteira é o que separa, mas também o que une: ponto de contato entre territórios, povos e línguas.

Se alguns povos indígenas vivem em livre trânsito entre Brasil e seus vizinhos e o conceito de fronteira lhes parece artificial, diz Krenak, ainda assim é preciso reivindicar a demarcação de suas terras, mais para uma “leitura externa” do que interna. Ele sonha “fronteiras que sejam mais indicações de transições, de gradientes na paisagem que precisam e possam ser transpostas”.

Carlos Drummond de Andrade tinha um sonho parecido em 1945, conforme mostra este trecho de “Cidade prevista”:

“(…)Irmão, cantai esse mundoque não verei, mas viráum dia, dentro em mil anos,talvez mais… não tenho pressa.Um mundo enfim ordenado,uma pátria sem fronteiras,sem leis e regulamentos,uma terra sem bandeiras,sem igrejas nem quartéis,sem dor, sem febre, sem ouro,um jeito só de viver,mas nesse jeito a variedade,a multiplicidade todaque há dentro de cada um.(…)”

Sofia Mariutti 

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