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Guer·ra

Em inglês, “combate” é “engagement”, que quer dizer também “noivado”. O noivado como combate faz lembrar da biografia de Franz Kafka, que ficou noivo três vezes na vida, duas da mesma mulher, sem nunca se casar. Kafka sempre acabava desertando desse combate chamado noivado. Se no “engagement” os noivos são as forças armadas, corpo a corpo é uma imagem sensual para falar de luta. O amor anda junto com a guerra: “Que contradição/ só a guerra faz/ nosso amor em paz”, canta o Gilberto Gil.

Há muitas espécies de guerra. Guerra de extermínio, guerra de trincheira, guerra total. Guerra química, guerra biológica, guerra bacteriológica. A “guerra atômica” (ou nuclear), com sua “rosa radioativa/ estúpida e inválida”, é tão fatal e diferente de todas as outras, que seu contrário é a “guerra convencional”: um mero conflito armado. A “guerra civil”, que acontece entre os cidadãos de um mesmo país, tem como sinônimo a “guerra intestina”. Pois “intestino”, além do nosso órgão recôndito, é um adjetivo que quer dizer “interno” e “civil, nacional”.

A “guerra de nervos”, assim como a “guerra psicológica”, busca minar o espírito de luta do adversário com ameaças. Falamos em “guerra aberta” quando a hostilidade é declarada, como na “guerra fria”, caracterizada pela ausência de conflito violento. A guerra remete ao horror, mas a expressão informal “velho de guerra” é usada carinhosamente para nomear o que inspira afeto, confiança e admiração. A “guerra santa” pretende reconquistar lugares santos, ou propagar alguma fé. Um oximoro que abraça o bem e o mal: como pode ser guerra e ser santa ao mesmo tempo?

A ucraniana Svetlana Aleksiévitch, Nobel de literatura, reconta a Segunda Guerra Mundial a partir do relato das mulheres que a viveram, no livro “A guerra não tem rosto de mulher”. Uma das entrevistadas, que conheceu o marido no front e lá se casou com ele, relembra: “Organizamos nosso casamento na trincheira. Antes do combate. E para costurar o vestido branco usei um paraquedas alemão.” A guerra tem rosto de amor, e aparece colada a ele no pensamento costurado por Aleksiévitch: “Uma pessoa fica mais exposta e se revela mais, acima de tudo, na guerra e, talvez, no amor. Até no que é mais profundo, até as camadas debaixo da terra. Diante da face da morte, todas as ideias empalidecem e se revela a eternidade incompreensível, para a qual ninguém está preparado. Ainda vivemos na história, e não no cosmos”.

A nossa “guerra” data do século 13. Embora pareça tão distante do inglês “war”, partilha de sua origem: os dois termos remontam ao germânico ocidental “werra”, que queria dizer “discórdia, revolta, peleja”. Em alemão, hoje, a palavra para guerra é bem diferente, “Krieg”. E “war” é apenas imperfeito do verbo “sein” (ser): a guerra era.

Sofia Mariutti 

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