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Ran·ço

“Depois que o ranço se instala, meu amor, não tem cura”, tuitou a Anitta em 2014. Alguns dias depois, a cantora insistiu: “O ranço entra aqui dentrinho de mim e não sai nunca mais”. “Não sei explicar o tamanho do ranço que eu tenho de gente mentirosa”, retomou em 2015. E em 2017: “Ranço… caminho sem volta”.

Ranço é substantivo e adjetivo. Pode se referir ao gosto acre e ao mau cheiro de uma substância gordurosa que se modificou ao entrar em contato com o oxigênio; pode ser sinônimo de mofo. No sentido figurado, é algo antiquado, obsoleto, além de um traço desagradável de uma pessoa ou coisa. E “rancor”, é claro, conforme o uso da rainha do ranço e do pop nacional.

No Houaiss, essa última acepção segue reservada ao Alentejo. No Aulete, tal sentido nem é mencionado. Anitta está bem à frente, com os alentejanos e o Priberam, que tem como base um dicionário do Porto e registra o sentido informal de “ranço” como “sentimento de ódio ou aversão”, e voilà: “rancor”. Serão os portugueses, célebres saudosistas, mais rancorosos?

A palavra “ranço” está registrada na nossa língua desde o século 13. Em seguida veio o “rancor”, no século 14. Se engana quem acha que a associação entre os dois termos é recente. Em latim, “rancĭdus” e “rancor” derivavam do mesmo verbo “rancere”, pouco usado, que queria dizer “criar ranço”.

Uma experiência desagradável ao paladar e ao olfato gera ressentimento. Guardamos rancor daquilo que apodrece, mofa, cheira mal e deixa um gosto ruim na boca. Se o ranço é rancoroso, a recíproca é verdadeira: não há nada mais rançoso que o rancor.

 

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto trazia o crédito de autoria de Sofia Nestrovski. Na verdade, o crédito é de Sofia Mariutti. A correção foi feita às 11h50 de 15 de julho de 2019.

Sofia Mariutti

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