Ir direto ao conteúdo

Numa terça-feira de manhã, o presidente foi ao cinema. O nome do filme era “Superação, o milagre da fé”. O slogan que o elegeu: “Brasil acima de todos, Deus acima de tudo”. Pelas ruas do país, certa camiseta que estampa a palavra “fé” em letra manuscrita, imitando o desenho de uma cruz, virou febre.

“A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência do improvável”, escreveu o jornalista norte-americano Henry Louis Mencken. Já o britânico Richard Dawkins, autor de “Deus, um delírio”, concorda: “‘A Hipótese de que Deus Existe’ é uma hipótese científica sobre o universo, que deve ser analisada com o mesmo ceticismo que qualquer outra.”

Mas o povo da terra de Roberto Carlos gosta de acreditar que Deus é brasileiro (tirando o Terrasamba, que tem lá suas dúvidas). Aqui, um emoji planejado para representar o gesto irreverente do “high five”, quando duas palmas se encontram em celebração, acabou fazendo sucesso com o sentido de fé e gratidão. Aqui, “fazer uma fezinha” quer dizer apostar um pequeno valor na loteria, e os caminhoneiros costumam arrastar consigo, pintada no para-choque, a frase “Deus é fiel”.

Por vezes, a fé gera movimento; é “capaz de mover montanhas”, faz as montanhas andarem até Maomé, abre os mares para Moisés, leva crentes em procissão a Aparecida. “Põe fé que já é”, canta Arnaldo Antunes. “A fé não costuma faiá”, reforça o Gilberto Gil. Mas a fé também imobiliza; acreditar demais que as coisas acontecerão é um ótimo meio de não fazer nada para que aconteçam. “Fé de carvoeiro” é o nome que se dá à crença cega de pessoas ingênuas — poderia ser “fé de caminhoneiro”. Um dos sentidos da expressão “dar fé”, por outro lado, é justamente “ver, notar”, na contramão da cegueira.

Para além da acepção religiosa de “crença”, a palavra latina “fīdes” trazia, no direito, a ideia de garantia e juramento. Daí a expressão bona fide, “sob boa garantia”, que deu em “boa-fé”: fidelidade, lisura. Como os romanos consideravam os cartagineses desleais, convencionou-se que “fé púnica” é o mesmo que falsidade, má-fé, perfídia.

“Fīdes” deriva, por sua vez, de “*bhei̯dh-”, uma base indo-europeia com o sentido de “confiar”, que deu também em “federado” e seus cognatos. Toda federação, portanto — inclusive a brasileira — é fruto de confiança. Mas não necessariamente em Deus. Conforme reza o cancioneiro da Marcha Mundial das Mulheres, “O Estado é laico/ não pode ser machista/ O corpo é nosso/ não da bancada moralista”.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto apontava Richard Dawkins como conterrâneo de Mencken. Na verdade, Dawkins é britânico. A correção foi feita às 14h22 de 2 de julho de 2019.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: