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Ze·ro

Zero é à meia-noite: 00:00. Zero é o meridiano de Greenwich, também chamado de “meridiano-zero”. Zero é onde nasce uma cidade: marco zero. Zero é onde se detona a bomba que destrói uma cidade: “ground zero”.

O “zero absoluto” da escala Kelvin é a menor temperatura que, em teoria, se pode atingir. Mas esse absoluto é relativo; corresponde a 273,15 graus negativos na escala Celsius, na qual “zero” é, por sua vez, o ponto de fusão do gelo.

Zero é numeral cardinal e substantivo masculino. O zero escrito à esquerda de um número não acrescenta nada a ele, enquanto o zero escrito à direita o multiplica por dez. De modo que um “zero à esquerda” é alguém sem préstimo ou valor. Mas a carta não chegaria a São Paulo sem o zero à esquerda do CEP. E qual seria o número do agente secreto mais famoso do cinema sem os dois zeros à esquerda do sete?

“Zerinho ou um”, gritam as crianças dispostas em roda antes de mostrar um dedo ou nenhum, e decidir quem sai do jogo. Em outras partes do Brasil, “dois ou um”. “Zerar” é anagrama de “rezar”, entre tantas outras coisas: conseguir algo que se desejou muito, tirar zero na prova, não ficar com ninguém na balada e, na tétrica gíria policial, matar alguém.

O zero surgiu como um espaço vazio entre os números registrados pelos sábios da Babilônia, milênios antes de Cristo. Mas nessa época ele ainda não era entendido como quantidade nula. Foram os indianos os primeiros a conceber o zero como número, por volta do século 6 d.C. “Shunya” era a palavra em sânscrito para “vazio”. A partir dela, os árabes teriam cunhado o termo “sifr” — para mais tarde levar o conceito de zero para o ocidente, por volta do século 8 d. C. “Sifr” deu tanto na nossa “cifra” como no nosso “zero”, datado de 1836, por influência do francês “zéro”, emprestado do italiano “zero”, passando pelo latim “zephyrum”.

Zephyrum? Pois é, mas não venha concluir que todo Zéfiro é um zero à esquerda, um zé ninguém. O nome veio de outra parte, do grego “zéphuros”, e significa “vento que sopra do ocidente”, ou “a personificação mitológica desse vento”.

Um dos muitos sinônimos de “zero” em sânscrito era “serpente da eternidade”, conforme conta Alex Bellos em “Alex no país dos números”. O zero é um círculo vazio que nos aprisiona e remete ao infinito, seu avesso. Com ele vieram alguns problemas insolúveis, como a indefinição da divisão por zero. Sem ele não haveria a matemática moderna. Sua invenção sempre foi disputada, e o mundo ocidental tentou forjar uma origem grega. Mas os documentos comprovam: o zero é um vento que soprou do oriente.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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