Ha·cker

Se os piratas de outro tempo saqueavam ouro dos navios, os ciberpiratas de hoje roubam dados, seja para enriquecimento ilícito ou por motivações ideológicas. No mundo radicalmente virtualizado, são capazes de causar instabilidade política, trazendo à tona ações abusivas de instituições e agentes públicos.

O hacker existe desde o século 14 na língua inglesa, segundo o dicionário Merriam Webster. Mas não no sentido que conhecemos hoje. Do verbo “to hack”, seria a princípio um “cortador grosseiro” ou um “cavador”. Com o tempo, passou a qualificar alguém “inexperiente”, “não qualificado”, como um jogador amador de tênis ou golfe, para chegar misteriosamente a um sentido quase inverso — “pessoa hábil em informática” — e ao seu desdobramento clandestino, “pessoa que se introduz em sistemas informáticos alheios com objetivos ilícitos”.

O dicionário Houaiss registra o termo derivado do inglês a partir de 1970. Nos apropriamos de tal forma da palavra que criamos um verbo híbrido, "hackear". Agora, se tivéssemos uma palavra mais aportuguesada para “hacker”, talvez fosse mesmo “cavador”, que também partiu de uma ação concreta para se desdobrar em sentidos figurados: primeiro deu nome a um “enxadeiro”, depois a alguém “esforçado, diligente” e por fim a alguém que “procura obter emprego ou vantagens por quaisquer meios, inclusive ilícitos”.

Inábil ou diligente, o hacker cava um túnel virtual para invadir um computador. Pode ser, aparentemente, não qualificado do ponto de vista formal (Edward Snowden não terminou o ensino médio), mas sem dúvida aplicado. Um amador que se tornou profissional, um especialista diletante.

O hacker ainda é malvisto, como um penetra numa festa. Mas poderia ser valorizado como um “furão”: um mamífero simpático, domesticado em alguns países, que ajuda na caça expulsando coelhos de suas tocas, ou um jornalista que descobre as notícias (furos) antes dos demais.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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