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Mo·le·que

“Ah, lelek lek lek”, ecoava o hit de MC Federado & Os Leleks em 2013, “Passinho do Volante”, que foi tema de propaganda da Mercedes Benz e de dancinha da Beyoncé. No Brasil do século 21, “lek” é apelido de “moleque”, ao lado de “leks”, “lesk” e “plesk”.

É, lelek, se você torce o nariz para a grafia da gíria, alegando que moleque não é com k, saiba que ela é fortemente amparada pela etimologia. “Muleke” era com k em quimbundo, língua banto falada em Angola da qual emprestamos a palavra no século 17. E tinha uma das acepções que vemos hoje: “garoto”, “filho pequeno”.

Yeda Pessoa de Castro, autora de “Falares africanos na Bahia”, inclui “moleque” entre os empréstimos lexicais associados ao regime de escravidão, tal qual “senzala” e “mucama”. São os chamados “empréstimos arcaicos”. Daí o lexicógrafo Raphael Bluteau anotar, em sua obra de 1728, que “moleque” veio do Brasil como “pequeno escravo negro”.

É assim que devemos entender a palavra no seguinte trecho de “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1881), de Machado de Assis (grifo meu): “Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixas, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, – algumas vezes gemendo, – mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um – ‘ai, nhonhô!’ – ao que eu retorquia: – ‘Cala a boca, besta!’”.

De como um “pequeno escravo negro” se tornou um “indivíduo sem palavra ou sem seriedade”, “canalha, velhaco, patife”, ou até mesmo sinônimo de “diabo”, no Ceará — algumas das acepções que colhemos nos dicionários de hoje — só podemos entender como herança social e linguística das injustiças perpetuadas pela escravidão.

A língua mostra que o brasileiro não dá muito valor aos seus “leks”. E desvalorizada também anda a moeda da Albânia, “lek”, que teve seus centavos extintos. No câmbio de hoje, 1 lek vale 4 centavos de real. Parece que o nome da moeda mirava alto, contudo: veio de “Leka i Madh”, que é a forma como os albaneses chamam “Alexandre, o Grande”. Magno moleque que, feito rei aos 20 anos, impôs-se do Punjab a Gibraltar.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto grafava errado o nome de Prudêncio, ao citar trecho de livro de Machado de Assis. A correção foi feita às 14h26 de 5 de maio de 2019.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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