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U·to·pi·a

A utopia, enquanto ideal de sociedade, costuma se projetar no futuro, mas soa como um verbo conjugado no pretérito imperfeito. A utopia ia, existia, resistia. Ou, no melhor dos casos, no futuro do pretérito. “A vida inteira que podia ter sido e que não foi”. Utopia rima com melancolia. Os organizadores da edição de “Utopia”, de Thomas More, pela Cambridge University Press, dizem que o livro é “bastante melancólico”.

A palavra “utopia” foi cunhada pelo próprio More, humanista que intitulou sua obra de 1516 a partir da fusão do advérbio grego “ou”, que quer dizer “não”, com o substantivo “tópos”, “lugar”, arrematando o neologismo com uma terminação latina. Ao mesmo tempo, More fez um trocadilho com outro termo grego, “eutopía”, que significa “lugar feliz ou afortunado”. O lugar feliz é um não lugar, lugar nenhum, nenhures?

O livro de More trata de uma república ideal situada numa ilha imaginária na América. Mas Utopia não parece nada perfeita ao olhar de hoje. Por um lado, pretende-se igualitária: não há propriedade privada, fome ou deficit habitacional. Por outro, mulheres obedecem aos homens, contraventores podem ser condenados à pena de morte, há escravos e guerras contra países vizinhos. Além disso, uma constante vigilância das autoridades limita as liberdades pessoais.

O discurso sobre a república ideal se insere na tradição da “República” de Platão, e discute até que ponto o moralmente correto (como a igualdade) é compatível com o eficaz (como a prosperidade e a estabilidade). Daí a repressão, que parece ter um papel central na manutenção da ordem. A melancolia de “Utopia” reside nessa dificuldade de colocar o ideal na prática. Por isso a república mora num não lugar. E por isso a palavra ganhou também o sentido de “quimera” e “fantasia”.

No fim do livro, depois de ouvir sobre as leis e instituições da ilha de Utopia, “More”, personagem homônima do autor, diz: “são muitas as características da Ilha Utopiana que eu desejaria, posto que não espere, ver implantadas em nossas sociedades”. O que More não soube, conforme lembram os organizadores, é que “muitas das reformas propostas em ‘Utopia’ foram levadas a efeito em vários países no decorrer dos séculos que se sucederam à publicação do livro — embora nem sempre por meios pacíficos”.

O livro de More inventou a palavra e de certo modo antecipou o ponto extremo a que a humanidade chegaria no século 20, com o advento de sociedades pretensamente igualitárias sob regimes totalitários. Hoje, é impossível falar em utopia sem falar em “fim” e “morte”. A palavra que representa o futuro parece mesmo ter ficado no passado. Mas para a organizadora do “Dicionário das utopias”, de 2008, Michèle Riot-Sarcey, é preciso reivindicá-la como forma de resistência: “a atualidade da utopia é também a atualidade da liberdade crítica”.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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