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Bal·búr·dia

Uma solução para quem quer “calar a balbúrdia do mundo”, conforme teria dito o sábio chinês T’ien Yi-heng, célebre no Pinterest, é “beber chá”.

As teorias quanto à origem da balbúrdia não são conclusivas. Há quem aponte para o céltico “balbord”: “tumulto”, “desordem”. Há quem afirme se tratar de um fenômeno oriundo das universidades. Outros insistem que seu berço são os aposentos infantis. O fato é que a palavra está registrada no português desde 1713, e sua etimologia mais provável — ainda que a balbúrdia nos faça pensar em manifestações resolutas de rebeldia — fala de hesitação.

Em latim, “balbus” era aquele que pronunciava mal e gaguejava; talvez fosse também meio fanho. Daí veio o nosso “balbo”, sinônimo de gago, assim como o verbo “balbuciar”. O mestre do balbucio é o bebê, que gosta de experimentar a linguagem dentro da boca. E como se deu esse salto da balbuciência para a balbúrdia? Quem fala aos tropeços cria uma baderna sonora de sons indistinguíveis. Singela baderna de bebês.

“Balbo” + “úrdia”. A terminação é rara, mas certamente pejorativa, como em “estúrdia” (leviandade), “palúrdio” (tolo) e “estapafúrdio” (disparatado). Vale se perguntar se a balbúrdia merece mesmo toda essa infâmia. Afinal, ela é tão balbuciante que hesita ao dizer o próprio nome, cheio de variações: balbúrdia, balburda, balborda ou balbórdia?

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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