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U·ni·ver·so

“Como será que tudo surgiu?”, se perguntava, outro dia, minha sobrinha. “E como será que era quando não existia nada? Tudo preto? Ou todas as cores misturadas?” Aos seis anos, ela chegava à pergunta fundamental que atormenta o homem há alguns milênios. “De fato, as únicas questões realmente sérias são aquelas que até uma criança pode formular”, escreve Milan Kundera em “A insustentável leveza do ser”. A passagem é citada no livro “A dança do universo”, do cosmólogo brasileiro Marcelo Gleiser, que chama a questão sobre a origem do universo de “A Pergunta”.

A palavra “universo”, datada do século 15, vem do verbo latino “vertĕre”: voltar, virar. Ao seu particípio “versus”, somou-se o prefixo “uni-”, com o sentido claro de “um”: tudo está voltado para uma só direção, em harmonia, no universo. Essa noção de unidade aparece em alguns dos mitos de criação apresentados por Gleiser em seu livro. É o caso do “Rigveda”, documento mais antigo da literatura hindu: “Apenas o Um respirava, sem ar, sustentado por sua própria energia”. “No início esse [Universo] não existia. De repente, ele passou a existir, transformando-se em um ovo. Depois de um ano incubando, o ovo chocou”, reza o “Chandogya Upanis”, outro texto hinduísta.

Para Gleiser, “A Pergunta” pode ser abordada tanto pela religião como pela ciência, desde que uma não interfira na outra. Afinal, a motivação de cientistas como Galileu, Newton e Einstein era religiosa, diz ele, e muitas imagens usadas pelas teorias científicas se assemelham aos mitos cosmogônicos, revelando esse mesmo princípio de unidade que mora na etimologia da palavra.

É o caso da ideia de “átomo primordial” proposta pelo belga Georges Lemaître em 1931, que foi precursora da moderna teoria do big bang. Um átomo, um ovo, um “Um”. Ao apresentá-la na revista Nature, contudo, Lemaître fala de um átomo instável que se quebrou em fragmentos tão logo começou a existir, e que esses fragmentos “escaparam em todas as direções”. No mesmo sentido aponta o fenômeno de expansão do universo, que faz as galáxias distanciarem-se umas das outras continuamente para todos os lados. Tudo voltado para uma só direção? A pesquisa sobre a origem do universo levou o homem à inversão do sentido da palavra (o sentido se virou para dentro, ficando do avesso).

E essa foi uma revolução. “Nosso planeta não ocupa uma posição especial no sistema solar, nosso Sol não ocupa uma posição especial em nossa galáxia, e nossa galáxia não ocupa uma posição especial no Universo”, lembra Gleiser. Esse “um” a que tudo estava voltado quando surgiu a palavra “universus” talvez tenha sido o homem, um dia.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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