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Li·xo

A origem do termo “lixo” é tão obscura e controversa quanto o destino de tudo o que jogamos fora. Uma das hipóteses reside no latim tardio “lixa” que queria dizer “cinza, ou água misturada com cinza”. Outra aponta para os excessos provenientes da ação de “lixar”.

Em português, damos o mesmo nome aos resíduos e ao recipiente que lhes é destinado. Jogamos (ou deveríamos jogar) o lixo no lixo. Diferente dos franceses, que jogam a “ordure” na “poubelle”, em homenagem a Eugène René Poubelle, prefeito de Paris que introduziu as lixeiras na cidade, no fim do século 19.

Também nós consagramos, com o termo “gari”, um francês: Pedro Aleixo Gary, empresário contratado em 1876 pela corte brasileira para remover o lixo do Rio de Janeiro. Hoje, a “turma do Gary” ainda varre as ruas e cuida da grama, além de trazer boy lixo para o coração da Marília Mendonça: “O meu cupido é gari/ só me traz lixo/ lixo, lixo, você é a prova disso”.

Os garis são muito eficientes em tirar o lixo da nossa vista. Mas não sabemos bem o que acontece depois disso. Somos mesmo redundantes: o lixo que jogamos no lixo pode ir parar no lixão, espécie de aterro sanitário precarizado que já não deveria existir no Brasil desde 2014, mas só se multiplica, o que atesta nosso fracasso administrativo. Curioso pensar que o inglês “waste”, uma das palavras para “lixo”, vem do latim “vastus”, que queria dizer não só “imenso”, como também “desolado”. “Imenso e desolado” é uma ótima definição para o nosso lixão.

O lixo é um erro de design”: eis o slogan do momento. Há que se pensar o destino dos objetos ao projetá-los, de modo que não se esgotem nem sejam descartados depois do uso. Enquanto procrastinamos a correção desse pequeno erro, pelo menos 25 milhões de toneladas de lixo são despejadas nos oceanos todo ano. Quem se lixa?

O crítico literário Roberto Schwarz conta que, quando começou a escrever sua chanchada política “A lata de lixo da história”, no fim da década de 1960, tal expressão era corrente: “Designava o depósito de velharias ao qual, com sorte, seriam jogados os políticos, as práticas e as teorias responsáveis por formas caducas de opressão.” O momento pode ser oportuno para a reciclagem da expressão — se é que na lata de lixo da nossa história ainda cabe alguma coisa.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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