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Há·bi·to

“Devemos dar tanta autoridade a alguém de jaleco?”, pergunta-se Michael Bernard Beckwith, um dos gurus espirituais consultados no filme “Heal”, que trata do poder de cura da mente. Beckwith conta de uma paciente que chega até ele com um prognóstico fatal e repete “O médico disse, o médico disse”, resistindo ao tratamento alternativo. Então ele sai da sala, volta com um casaco branco, um crachá que o intitula “doutor”, e anota numa receita o que ela deve dizer a si mesma, ler e comer no próximo mês: “Você teve um enorme alerta sobre hábitos terríveis que manteve por muitos anos. Está prestes a quebrar o ciclo desses hábitos e vai observar seu corpo mudar”.

O hábito não faz o médico, mas os bons hábitos podem trazer a cura. Tento definir intuitivamente a palavra “hábito”: pode ser uma “roupa” ou um “costume” do dia a dia. Ora, um “costume” também pode ser uma “roupa” ou um “hábito” do dia a dia. Vejo um abismo se abrir no meu córtex cerebral. O que a moda tem a ver com nossas práticas regulares, e por que andam sempre juntas?

O dicionário Merriam Webster conta a história dos usos de “hábito” em inglês. Quando a palavra foi introduzida, no século 13, a partir do francês, queria dizer “vestimenta”, uso que hoje praticamente se restringe aos monges, padres e freiras. Na França, enquanto isso, “des habits” segue sendo uma forma usual de se referir à indumentária em geral. Com o tempo, “habit” em inglês passou a designar uma roupa própria para certa profissão ou atividade, até chegar ao sentido de “comportamento” e “padrão de comportamento”. Não soa muito diferente do que vemos em português.

Já em latim, “habĭtus” queria dizer inicialmente “condição”, evoluindo para “como alguém conduz a si mesmo”, até virar sinônimo de “vestimenta”. Ou seja: a palavra parece ter feito o caminho exatamente inverso do inglês. Puro acaso, diz o dicionário, que não perde o ensejo do trocadilho: “Os sentidos das palavras vão se estabelecendo pelo uso e pelo hábito”. Mas será mesmo coincidência?

Afinal, “habĭtus” veio do verbo “habēre”, que além de “ter” era “ser” e “exibir”. Essas noções todas estavam, portanto, entrelaçadas. Somos o que exibimos; o que temos determina nossa condição. Além disso, “ter uma coisa muitas vezes” era habitá-la, “habitāre”. Se temos muitas vezes a mesma casa, a habitamos. Se usamos maiô vários dias da semana, habitamos o maiô, e é bem provável que estejamos habituados a nadar. As aparências só enganam à medida que, na maior parte das vezes, dizem a verdade.

“O hábito não faz o monge” é uma expressão com muitos desdobramentos. Pode significar que sim, as aparências enganam. Pode querer dizer também que estar vestido com um hábito não é suficiente para “entrar para o hábito”, é preciso também adotar práticas monásticas. E insinua, ainda, que não bastam nem os trajes nem o comportamento monástico — isso tudo ainda não faz de você um monge. Por isso dou toda a razão a um amigo que se perguntava, na infância: “Se o hábito não faz o monge, os maus hábitos o fazem?”.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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