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Li·vro

Os livros são objetos transcendentes/ mas podemos amá-los do amor táctil/ que votamos aos maços de cigarro”. Os versos de Caetano Veloso fazem jus à materialidade etimológica da palavra “livro”, do latim “lĭbĕr” — que dava nome à “película entre a madeira e a casca exterior” das árvores, sobre a qual se escrevia antes do advento do papiro, e com o tempo passou a nomear o próprio texto escrito sobre essa película. (Não confundir com o adjetivo “lībĕr”, de acento longo no “i”, que deu no nosso “livre”.)

Se nos libertamos do “lĭbĕr” e do papiro, não nos distanciamos tanto do sentido original da palavra: os livros ainda são feitos de uma fibra retirada das árvores, a celulose. A novidade veio com os livros eletrônicos e e-books, que nasceram e vivem nas nuvens.

“Buquinemos, amiga, neste sebo”, abre Carlos Drummond de Andrade o “Soneto da buquinagem”, de 1955. O verbo “buquinar”, que quer dizer buscar e comprar livros, foi introduzido no português naquela década mesmo, talvez pelo próprio Drummond, a partir do francês “bouquin”, de mesma origem do inglês “book” e do alemão “Buch”. Há quem diga que tais palavras também vieram de uma árvore, a faia (“beech”/Buche), em cuja casca os povos germânicos talhavam letras e até hoje casais de namorados registram suas iniciais, cercadas por um coração. O que sabemos ao certo é que elas remontam ao gótico “bōka”, que quer dizer “letra”. E o que é um livro senão uma sequência de letras?

É alemão o primeiro volume impresso com tipos móveis, a Bíblia de Gutenberg, do século 15, que inaugurou a era da reprodução dos livros no mundo ocidental. A Bíblia (não só de Gutenberg) é o “livro dos livros”. “Livro de cabeceira” é o livro preferido, ou um livro a ser consultado. “Ser um livro aberto” é não ter segredos. Diário, em alemão, é o “livro do dia”. Em inglês, fazer alguma coisa “conforme o livro”, é fazê-lo de acordo com as regras; “o povo do livro” são os judeus e os cristãos para os muçulmanos e “não se pode julgar um livro pela capa” é o nosso “as aparências enganam”.

O Houaiss conta que o pacote de seda para enrolar tabaco chama-se, tecnicamente, “livrilho”. Cigarros também são feitos de papel; deve ser por isso que os amamos do “amor táctil” que votamos aos livros. Na botânica, o mesmo termo, “livrilho”, se refere à “parte interna da casca dos vegetais, formada por muitos folhelhos sobrepostos, como as folhas de um livro”. Do pó viemos e ao pó tornaremos: o livro, nomeado a partir dos vegetais, a eles torna, servindo de metáfora para nomeá-los.

Em poema dedicado a Jean Paul Sartre, José Paulo Paes equipara os livros ao pó, destino inexorável de toda matéria:

mortosem filho nemárvore

livros só

enfima existênciafeita essência:

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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