Ir direto ao conteúdo

E·fi·ci·ên·cia

A eficiência não é uma ciência; nada tem a ver com o termo latino “scientĭa”, que quer dizer “conhecimento”. Mais do que ao saber, a palavra está ligada ao fazer, remonta ao verbo latino “facĕre”. A ele se somou o prefixo “ex”, que indica movimento de dentro para fora. A eficiência, portanto, é a capacidade de fazer sair.

Mas por que “eficiência” e não *exfaciência? Com a prefixação do verbo, deram-se dois fenômenos bastante comuns na língua latina: apofonia (a raiz “fac-” virou “fic-”) e assimilação (“ex” virou “ef”, contaminado pelo vizinho “fic-”). O resultado é o verbo “efficĕre”, que originou o substantivo “efficientĭa”. Os mesmos processos ocorreram quando “facilis” se tornou “difficilis”, palavras que partem da mesma raiz.

A duplicação do “f” em latim ajuda a explicar as grafias em francês e inglês: “efficience” e “efficiency” (assim como “difficile” e “difficult”). Foi, aliás, sob a influência do termo inglês, datado de 1633, que a palavra entrou no nosso vocabulário, em 1647. Ainda no século 19, ela era grafada com consoante geminada também em português, o que só mudou com a reforma ortográfica do começo do século 20.

Segundo Edward Wilson, o polegar opositor aumentou a eficiência das mãos e dos pés dos primatas, o que, como sabemos, foi decisivo para que chegássemos à condição humana. Sem o polegar opositor, dificilmente faríamos sair qualquer coisa de qualquer lugar: um espinho do pé, a semente de uma fruta, o fogo das pedras. Mas, para o matemático e filósofo Bertrand Russell, “se a raça humana sobreviveu, foi graças à ineficiência.” Fôssemos mais eficientes, talvez já teríamos feito sair do planeta tudo o que nos garante a vida, e assim teríamos extraído dele a própria raça humana.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!