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Pou·pan·ça

Quem poupa dinheiro tem as cautelas de quem apalpa um terreno para saber onde está pisando. É assim que alguns filólogos explicam a origem provável de “poupar”, do latim “palpō”, que quer dizer “tocar levemente com a mão” e deu também no nosso “apalpar”. Poupar seria, portanto, tocar com mão leve o bolso, a carteira, os botões do caixa eletrônico. O verbo está na língua portuguesa desde o século 13. Foi a partir dele que se formou, no século 19, o substantivo “poupança”, primeiro com o sentido pejorativo de “sovinice” e depois com uma inversão valorativa, passando a significar “moderação”.

“O tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus continua numa boa”. O jingle do fim dos anos 1980 sobreviveu ao confisco do Plano Collor, prosperou em novos arranjos na década de 1990 e ainda resiste na memória de muitos brasileiros — embora o banco paranaense Bamerindus tenha sucumbido há mais de 20 anos. No mundo da economia, “poupança” se refere a uma fração de renda não gasta, e também à conta onde se deposita tal fração, esta última como redução de “caderneta de poupança”. Tal tipo de conta era a principal finalidade do decreto que instituiu a Caixa Econômica no Brasil, ainda nos tempos de Império. Quando um depositante abria uma conta, recebia um pequeno caderno onde se registravam seus dados, depósitos e retiradas, daí a caderneta.

O tempo passa, o tempo voa, a língua faz giros surpreendentes, e você pode se perguntar o que as nádegas têm a ver com tudo isso. A dúvida vem da confusão entre “poupança” e o seu parônimo “popança” — ao que parece, este último foi cunhado por Didi Mocó, dos Trapalhões, a partir de “popa”, a traseira de uma embarcação, que já designava, por metonímia, a traseira do ser humano. São da mesma família o “popô”, o “popozão” e o ainda não dicionarizado “popozuda”, corrente nas duas últimas décadas graças à Valesca e sua gaiola.

E a “polpa” nisso tudo? Do latim “pulpa” (que nada tem a ver com “palpō”), a palavra diz respeito ao miolo tenro das frutas, mas também à “parte carnosa dos animais”. O que nos remete imediatamente ao tecido musculoadiposo das nádegas. Afinal, é polpuda a popa dos seres humanos, também chamada de "popança". E para tornar tudo mais complicado, “polpudo” é o negócio que rende muitos lucros. Diferente da caderneta de poupança, que nunca rendeu tanto assim.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto afirmava que a palavra “poupança” era sinônimo informal de “nádegas” e não trazia a acepção dicionarizada de “popança”. A correção foi feita às 20h46 do dia 8 de abril de 2019.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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