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Ba·gun·ça

Uma vez, um amigo foi abordado por dois garotos num ônibus: “Você é uma graça! Está livre essa noite? Quer fazer uma baguncinha?” Tal uso libidinoso da palavra não está dicionarizado; nem sequer me parece corrente. Mas o elo entre o ato sexual e a confusão não é inédito. Faz lembrar do termo francês “bordel” — que quer dizer “casa de prostituição” e, ao mesmo tempo, “grande desordem” — e do português “orgia” — que pode ser sinônimo tanto de “suruba” como de “tumulto”.

“Bagunça” é um brasileirismo datado de 1926. A etimologia da palavra é controversa, mas talvez seja expressiva, isto é, de provável origem onomatopeica ou imitativa. Sua primeira acepção no Houaiss é “máquina de remover aterro”, que teria gerado os sentidos de “falta de ordem” e “baderna”. Imagino uma máquina desajeitada que fazia barulho e confusão por onde passasse, embora não tenha encontrado registro de sua existência para além dos dicionários; esse uso parece estar há muito soterrado.

“Mess” é bagunça, em inglês, mas também uma grande quantidade de alguma coisa: “a mess of peas” não é uma bagunça de ervilhas, e sim um punhado de ervilhas, que, no entanto, fará uma bela bagunça se entornado no chão da cozinha. Em português, “bagunçar o coreto de alguém” é intrometer-se numa situação, causando embaraço. “Não repara na bagunça”, dizemos invariavelmente quando alguém entra na nossa casa ou no nosso quarto, mesmo que tenhamos feito tudo o que podíamos pela manutenção da ordem.

Para os portenhos, “bagunça” é “quilombo”, o que seria uma das heranças linguísticas do racismo contra indígenas e afrodescendentes no Estado argentino, conforme lembra ensaio recente de José Bento Camassa para o Nexo. O dicionário da Real Academia Espanhola mostra que esse sentido também vale para outros países da América Latina, como a Bolívia, o Paraguai e o Uruguai. Nesses países, “quilombo” tem ainda o sentido pejorativo de “prostíbulo”. O que é prova ainda pior do preconceito, e também de que a linguagem tende a atrelar a bagunça e a volúpia.

Para falar da dor da separação, na letra “Eu te amo”, Chico Buarque cria imagens pictóricas do emaranhamento dos corpos:

Se nós, nas travessuras das noites eternasJá confundimos tanto as nossas pernasDiz com que pernas eu devo seguir

(...)

Como, se nos amamos feito dois pagãosTeus seios inda estão nas minhas mãosMe explica com que cara eu vou sair

E eis que, nesse contexto lascivo, mais uma vez nossa palavra desponta:

Se entornaste a nossa sorte pelo chãoSe na bagunça do teu coraçãoMeu sangue errou de veia e se perdeu

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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