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A·le·gri·a

Há quem diga que o brasileiro é um povo alegre. Paulo Prado, contudo, começa o ensaio “Retrato do Brasil” dizendo que “Numa terra radiosa vive um povo triste”. Há quem sinta que o samba é alegre. Mas Vinicius de Moraes canta que “pra fazer um samba com beleza/ é preciso um bocado de tristeza”. Há quem considere “Macunaíma”, de Mario de Andrade, um romance alegre, assim como seu protagonista. Mas seria “Ai, que preguiça!” a fala de alguém tomado de alegria?

Registrada no português desde o século 13, a palavra “alegria” vem do latim vulgar “*alĭcer”, “alĕcris”, no lugar da forma culta “alăcer”, “alăcris”, “vivo, animado, feliz, bem-disposto”. De “alăcris” veio “alacridade”, seu irmão erudito.

A alegria aparece por vezes ligada à fertilidade: é sinônima de “gergelim”, a semente de onde brota o Sesamum orientale. E no plural, as “alegrias” querem dizer, em uso informal, “testículos de animais” (de modo que parte das “vergonhas” dos machos podem ser chamadas de suas “alegrias”). Não à toa, os sentidos de “alegria” e “fertilidade do solo” estão reunidos em uma só palavra latina: “laetitĭa”. Dela surgiu o nosso substantivo “letícia”, que significa “estado de viva satisfação; ledice, júbilo, regozijo”. Ironicamente, na canção de Serge Gainsbourg, o eu-lírico cultiva a dor enquanto soletra e digita obsessivamente, em sua remington, o nome “Lætitia”.

O inglês “gay” — que só ganhou o sentido de “homossexual” e se espalhou pelo mundo anglófono a partir de 1953 — vem do francês “gai”, “jovial, alegre”. É o gerador do nosso “gaio” e aparentado do alto-alemão antigo “gāhi”, que significa “rápido, de repente”. A alegria é dinâmica, como se vê nos versos mais famosos de “Alegria, alegria”: “Caminhando contra o vento/ sem lenço sem documento/ no sol de quase dezembro/ eu vou”.

Data de 1566 o termo italiano “allegro”, “movimento musical em tempo rápido”, que deu origem ao nosso “alegro”. Em outras línguas, a tradução de “allegro” foi reduzida, por vezes, à noção de rapidez: “vite”, “rasch”, “quickly”. Nem sempre um alegro é alegre, como mostra o primeiro movimento da suíte “Quadros de uma exposição”, do russo Mussorgski. Intitulado “Promenade” (passeio), deve ser tocado em tempo “allegro giusto”, mas “senza allegrezza”.

Em andamento animado, mas sem alegria: uma definição possível para “Macunaíma”. O samba. E o povo brasileiro.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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