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Se·gu·ran·ça

Biélikov era o “Homem num estojo”. Um professor de grego que, mesmo com tempo firme, saía de galochas, guarda-chuva e sobretudo. Escondia o rosto sob a gola, guardava seus pertences em bainhas e andava com a capota da carruagem levantada, como se vivesse cercado por uma membrana, “um estojo, que o isolasse e o defendesse contra influências externas”. Daí o título do conto de Anton Tchékhov. “Contanto que não aconteça alguma coisa” era o bordão de Biélikov, que — mesmo com a porta aferrolhada, as janelas fechadas por venezianas, dentro de um quarto semelhante a uma gaveta, numa cama envolta por um dossel e coberto até a cabeça — tinha sonhos intranquilos, temendo que alguém o apunhalasse ou que ladrões entrassem em seu apartamento.

 

Durante debate na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) em  2014, a sul-africana René Uren chamava a atenção para o fato de que, em inglês, há duas palavras para o que chamamos, em português, de “segurança”: “security” e “safety”. Ela diz que para resolver o grave problema da violência na África do Sul, marcada pelo apartheid, muitos pensam que a solução está em mais delegacias, policiais e armas — coisas que logo vêm à cabeça quando se fala em “security”. Em sua experiência na área de prevenção do crime e da violência, contudo, Uren se deu conta de que quando nos sentimos seguros (“safety”) não é preciso oferecer tanta segurança (“security”). Ela deu o exemplo de uma iniciativa de mulheres desempregadas que passavam 24 horas por dia patrulhando as ruas de uma comunidade periférica extremamente violenta e, sem armas ou proteção, chegavam a resultados que a polícia ostensiva jamais alcançaria. Talvez a “security” de Uren seja o “estojo” de Tchékhov.

 

O substantivo “segurança”, introduzido no português no século 14, vem do verbo “segurar”, que por sua vez vem do adjetivo “seguro”, do latim “sēcūrus”, formado por “se” (sem, livre de), e “cūra” (cuidado, preocupação). A segurança é, portanto, a ação ou o efeito de tornar livre de cuidados e preocupações. Da mesma raiz “cur-” formou-se o substantivo “curiosidade”, que parte da ideia de “cuidado, diligência em buscar uma coisa, procura cuidadosa, empenho em saber”.

 

Na maior parte das acepções, “segurança” é um substantivo abstrato, que tem como sinônimos tranquilidade, confiança, firmeza, garantia (além de “prenhez de fêmea de quadrúpede”, talvez porque essa fêmea tenha “segurado” o feto no útero, e assim o tornou livre de preocupações?). Mas surge também como substantivo concreto de dois gêneros; é o caso daquele “segurança” que pede o crachá no rock do Gilberto Gil.

 

“O seguro morreu de velho”: o provérbio sugere que quem age com segurança não morrerá de desastre, mas de causas naturais. Pois Biélikov acaba morrendo jovem. No caixão, estojo eterno, ele tem uma expressão plácida, parece ter “alcançado seu ideal”.

 

Sofia Mariutti 

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