Chu·va

A moeda da República de Botsuana é a chuva, “pula”, que se divide em cem gotas, “tebes”. “Pula” é também o lema desse país da África austral de clima árido, na maior parte tomado pelo deserto do Calaári. Segundo Patrick Boman, que conta essa e outras curiosidades no livro “Dictionnaire de la pluie”, a chuva “irriga o nosso imaginário ao abrir um espaço mental incomparável”.

Os piauienses, que convivem com a seca, parecem concordar. “Tá bonito pra chover”, dizem quando está nublado em Teresina. No português brasileiro, “chuva no roçado” é sinônimo de “bom negócio”. Enquanto isso, na Irlanda, a expressão “it’s pissing rain” (ao pé da letra, “está mijando chuva”) mostra a disposição de quem se depara com uma chuva forte numa região que é célebre pelos dias nublados. Os italianos deram um jeito de culpar as autoridades pela chuva excessiva, que atrapalha os trabalhos no campo: “piove, governo ladro!”

Rara ou abundante, a chuva é sempre mencionada (especialmente nos elevadores, onde jamais choveu). Daí haver tantos ditos chuvosos em todas as línguas. Em alemão, uma “chuva quente” é uma ajuda financeira muito desejada, e “deixar alguém na chuva” é deixar alguém sozinho numa situação difícil. Em espanhol, além de chover “a cântaros”, chove “a mares”. Em francês, quando não se vê mais espaço entre uma gota e outra, “chovem cordas”, e em português também falamos em “corda d’água” ou “cordoada”.

Chuva de pedra é granizo. Enquanto há chuvas de baldes, gatos e cachorros na língua inglesa, aqui só chovem canivetes no modo subjuntivo: “Nem que chova canivete, Odete”, canta Itamar Assumpção em versão da música de Ataulfo Alves.

Registrada no português desde o século 13, a palavra “chuva” vem do latim “plŭvia”. Na boca do povo, o encontro consonantal pl se tornou ch, num processo bastante comum chamado de palatização. As palavras que mantiveram o encontro pl, como “pluvial” e “pluviometria”, são hoje consideradas eruditas.

Quando tomamos um banho de chuveiro, no fundo estamos tomando um banho de “chuva grande e impetuosa”, seu sentido primeiro. Talvez por isso, nessas horas, se abra em nós um espaço mental incomparável, como diz Boman, que irriga nosso imaginário coletivo e nos faz criar tantas expressões pluviais. Pode tirar o cavalinho da chuva: impossível dar conta de todas elas.

Sofia Mariutti é poeta e tradutora. Trabalhou como editora na Companhia das Letras entre 2012 e 2016. Em 2017, lançou pela Patuá a reunião de poemas “A orca no avião”, seu primeiro livro. Mestranda em literatura alemã pela USP, trabalha em 2019 na tradução da biografia de Franz Kafka para a editora Todavia.

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