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Fo·li·a

A “folia" é alegre, mas não só. O dicionário diz que a folia é um “farra" ou “brincadeira”. Pode ser uma “dança muito movimentada” ou uma “forma tradicional de festejar o dia dos Reis”.

Mas a folia é, ou já foi, outras coisas também. Ela tem parte com os loucos, e um parentesco oculto com as origens da vida.

A folia vem do mesmo lugar que, entre outras coisas, as gaitas de fole. Tudo começou muito tempo atrás com a raiz “*bhel-”, do protoindo-europeu. É este, supostamente, o verbo mais remoto que se tem para “soprar”, “inflar”. Deu no “fole” que infla para a gaita ressoar. Deu no “fole” (mesma grafia, pronúncia diferente), “louco" em francês. Deu também no “fool" do inglês, “tolo”, “bobo”. “Fool" (inglês) e “fole" (francês) são, na verdade, duas versões diferentes para aquilo que nós chamaríamos de “cabeça de vento”. Isto é, essa origem em comum diz algo como: as pessoas infladas de ar são tolas, bobas ou loucas. Mas o desdobramento disso é que elas podem também ser loucas de alegria — com as danças, festas, farras ou brincadeiras, tornam-se mais foliãs do que “fools”.

Mas essa mesma raiz “*bhel-” tem, além desses sentidos, “derivações que fazem referência a diversos objetos redondos e à masculinidade tumescente”. Ou seja, “*bhel-” é a responsável por “balão” mas também por “falo”. E não só: supõe-se que ela esteja por trás dos “florescimentos" e das coisas que “fluem”. “*Bhel-” é soprar. “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente” (Gênesis 2:7, grifo meu). É aquilo — fôlego ou folia — que nos põe para viver.

*

Concluo aqui, com este octogésimo verbete, minha contribuição com a seção “Léxico”. A seção seguirá agora nas mãos de minha xará, Sofia Mariutti, a quem desejo alegria e fôlego na empreitada.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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