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Hu·mor

Nosso senso de humor já foi mais molhado. “Humor" veio do latim “umere” ou “humere", “molhar”, “umidificar”. A qualidade primeira dele não é ser engraçado, é ser líquido.

Numa linha de medicina tradicional, sistematizada pelos gregos e empregada por toda a Europa até meados do século 18, acreditava-se que havia quatro tipos de humor no corpo humano: fleuma, sangue, bile negra, bile amarela. Eram quatro fluidos que, segundo a teoria, determinavam nossas tendências de saúde e atitude. A depender dos nossos humores líquidos, podíamos ser mais fleumáticos, sanguíneos, melancólicos ou coléricos.

Um dicionário de português do século 18 oferece como primeira acepção para "humor", "líquido que gira e circula nos vasos do corpo humano, e nos das plantas”, e só depois, na segunda definição, lembra de dizer: “boa ou má disposição do ânimo” . A passagem pode ter sido mais ou menos assim: dos humores líquidos, que definem as tendências de ânimo do indivíduo, passou-se a usar "humor" para pensar no estado geral de cada um ("bom humor", "mau humor"), bem como nas esquisitices particulares das pessoas. Não há duas pessoas no mundo que tenham a mesma distribuição interna de humores, e os arranjos e desequilíbrios dos quatro fluidos produzem nas personalidades seus pontos inusitados.

No final do século 16, o dramaturgo inglês Ben Johnson escreveu duas peças sobre personagens que se viam totalmente dominados por seus humores. No começo da segunda, ele explica:

Some one peculiar qualityDoth so possess a man, that it doth drawAll his affects, his spirits, and his powers,In their confluctions, all to run one way.

Uma qualidade particular e únicaDeve possuir o homem a tal ponto, que arrastaTodos os seus afetos, ânimos e poderesEm sua confluência, para correrem juntos.

O "humor" pode ter começado com a descrição de idiossincrasias, estranhezas e peculiaridades humanas, e se transformado até ganhar o sentido de "engraçado". Não era um passo muito grande para dar. Como resume o poeta John Ashbery de modo quase engraçado de tão simples, "people are funny", "pessoas são engraçadas".

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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