Ir direto ao conteúdo

Ho·mem

“Homem” é uma coisa estranha. Ninguém sabe bem de onde veio, nem para que serve. Há hipóteses que tentam traçar uma relação entre a palavra “homem” e a palavra “humano”; há hipóteses que tentam traçar as origens para o latim “homo”; há hipóteses que tentam traçar as origens para o latim “humanus”. Mas são hipóteses, e pouco mais. No inglês, com “man”, é a mesma coisa: pode ter vindo de um termo relacionado aos deuses, pode ter vindo de um termo relacionado aos demônios, pode ter vindo de um termo relacionado às mãos, pode ter surgido simplesmente como um barulhinho que os bebês gostam de fazer quando ainda não sabem falar. Pode também, como tantas outras coisas, ter vindo de algum lugar que ninguém ainda suspeita.

Um linguista do século passado estudou as línguas de um certo povo nativo da América do Norte e constatou que nenhuma delas tinha uma palavra específica para “homem”, e que não era possível traduzir diretamente esse conceito para eles.

Pensar no “indivíduo adulto humano de gênero masculino” (assim como no “indivíduo adulto humano de gênero feminino”) é se dispor a fazer uma abstração curiosa. Esses indivíduos são muito mais genéricos do que, digamos, um “pai”, um “irmão”, um “nativo da América do Norte”, ou um “linguista”, um “jornalista”, um “leitor”. Por que, então, precisamos dele? Não é em todas as culturas que convém ter uma abstração assim. Não é em todas as culturas que convém entender que existe uma diferença significativa o suficiente para ser nomeada entre o “indivíduo adulto humano de gênero masculino” e o “indivíduo adulto humano de gênero feminino”. Para ficarmos só com um exemplo de como essas coisas podem ser, vale lembrar que, em português, nascemos sem gênero: somos apenas “bebês”.

Voltando às hipóteses: alguns estudiosos entendem que “homem” tenha vindo do mesmo lugar etimológico que o “humano”, isto é, que ambos tenham vindo da terra. “Humano”, concordam a maior parte dos linguistas, remete a “humus”, latim para “chão” e “terra”. Assim, a espécie humana se designa por oposição aos deuses, é aquela que vem do chão, não dos céus.

Saindo do chão e das línguas latinas, encontramos outra sugestão. Em árabe, a humanidade — “al-insan”— não se nomeia a partir do lugar de origem, e sim de sua função. Alguns estudiosos da língua apontam: “al-insan” viria do mesmo lugar que “nisyan”, o “esquecimento”. Os humanos (pouco importa o gênero) são aqueles que esquecem.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!