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Con·gres·so

Congresso já quis dizer “cópula carnal” em português antigo. Não quer mais.

Congresso parece com regresso. E também com ingresso, egresso e com progresso. Mudam-se os prefixos, mantém-se o resto. O “con-” de “congresso” é um “com” de “junto”, “na companhia de”. O “re” do “regresso” é o que faz as coisas voltarem; o “pro” faz o movimento contrário, coloca elas para seguirem adiante. O “in” do “ingresso” é “para dentro”, o “e”, “para fora”.

Sobra esse “-gresso”, que une a todos. É também ele que dá origem a “transgressão” e “agressão”; a “graduação”, “degrau” e “ingrediente”.

Se parássemos aqui para tentar adivinhar o que essa raiz quer dizer, onde chegaríamos? Qual o sentido que vai dos congressos — cópula e tudo — aos ingredientes?

Esse “-gresso”, que veio do latim “gradus”, significa simplesmente “passo”, ou o ato de caminhar. Mas essa caminhada precisou assumir um sentido abrangente o suficiente para que a palavra pudesse caber em contextos tão diferentes. É verdade que tanto no “congresso” como nos “ingredientes”, podem existir certos passos, ou certa ideia de passos. Mas não são passos literais — não há nada aqui que pressuponha o movimento dos pés.

Para funcionar nesses novos sentidos, o “gradus” deixou seu uso literal e se transformou em metáfora. Perdeu os pés. Mas ganhou novos caminhos por onde andar.

A língua é “poesia fossilizada” escreveu Ralph Waldo Emerson. “Assim como o calcário do continente é formado por acúmulos infinitos de conchas de animais, também a língua é composta de imagens, ou tropos, que, já há muito deixaram de nos recordar, neste seu uso secundário, de suas origens poéticas”. No “congresso”, nós “caminhamos juntos”. É essa sua origem — este o fóssil da palavra.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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