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A·ni·mal

Um dicionário de português da primeira metade do século 18 descreve o “animal" como:

Corpo animado, que se move & sente. Composto de partes orgânicas & tão bem unidas & dispostas para a conservação da vida, que tem faculdade para restaurar com alimento a substância que com calor se diminui & se consome.

Um dicionário do século 21 resume o verbete: “Animal: Ser vivo organizado, com sensibilidade e capacidade de locomover-se”. O dicionário mais recente ganha na concisão e perde, com isso, algo da descrição — perde sobretudo na capacidade que as descrições têm de avivar a imaginação dos leitores. Mas talvez essa já não seja uma função dos dicionários.

Também não é uma função declarada das pesquisas em etimologia. Não é declarada, mas isso não a impede de servir às imaginações de quem as lê. Para darmos um exemplo, e voltarmos aos animais, eles são aqueles que, etimologicamente, têm alma. “Animal” vem do latim “animale”, que vem de “anima”, que, entre outras coisas, quer dizer “alma”. Estar “animado”, “cheio de ânimo” é, em alguma medida, estar “cheio de alma”. Olhando assim, parece existir alguma correspondência oculta no português entre ser um “animal” e ter “presença de espírito”.

Desde a Grécia antiga até o século 19, quando as ideias de anatomia ainda eram bastante diferentes, era comum se falar em “espírito animal” (“spiritus animales” em latim), uma substância que supostamente seria encontrada nos animais humanos. Acreditava-se que ele era o responsável por nossas faculdades de sensação e locomoção. René Descartes, o filósofo francês, escreveu que, durante o sono, saem mais espíritos pelas narinas e pelo palato do que quando estamos acordados: daí o corpo nesse momento estar parado. Depois do sono, ocorre o espreguiçamento para novamente encher, naquele momento, os músculos de espíritos, os quais durante o sono haviam escapado.

Voltando às etimologias, tanto o “espírito”, como a “alma”, vêm do ar: se buscarmos pelas origens dos dois no protoindo-europeu, chegamos respectivamente a “*(s)peis-”, “soprar”, e “*ane-”, “respirar”. E o contrário de ambos, “expirar”, que pode ter o sentido de “morrer”, é tirar o ar, “ex” + “spirare”. Mas é desse mesmo lugar que veio nosso “espirrar”. Animal: ser vivo organizado, que inspira ao nascer, expira ao morrer e espirra algumas vezes no meio do caminho.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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