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Vi·o·lên·cia

Antes de o português ser exatamente português ou, melhor dizendo, muito antes dele ser isto que conhecemos hoje, era ainda um pouco galego, e letras inesperadas (os “x” são superabundantes) e palavras curiosas apareciam em todo lugar. Uma dessas palavras, vinda direito do século 13, é o verbo “violar”. Aparece, por exemplo, neste ciclo de canções do rei Alfonso, o sábio, para a Virgem Maria:

Um jogral, de que seu nome

Era Pedro de Sigrar,

Que mui bem cantar sabia

E mui melhor violar […]

Tente entender o verbo com o sentido que tem hoje — “violar”: desobedecer, invadir, violentar, estuprar, profanar — e os versinhos de repente ganham um tom macabro. Que certamente não estava lá na origem. Muito mais inocente, o “violar” de que eles falam era “tocar viola”. Ou, nem exatamente “viola”, porque as que temos hoje ainda não existiam na época, mas mais provavelmente, um instrumentinho antigo, parecido com um violino. Violar é violinar.

Fora isso, podemos seguramente imaginar que os violinos, de modo geral, não têm muito a ver com a violência. Esta última vem do latim, “violentia”, e, embora não tenha a ver com instrumentos musicais, pode, infelizmente, ter a ver com os homens. É apenas uma hipótese, mas há quem trace uma origem em comum para “violentia” e “viril”.

Vem pela raiz do protoindo-europeu, “*weie-”, que significa “perseguir” ou “buscar” algo com força ou desejo. Desejo e violência: os prazeres, quando violentos, desembocam em finais à sua altura: “prazeres violentos encontram fins violentos” (“these violent delights have violent ends”), é o que alertava, no século 17, o frade da peça “Romeu e Julieta”.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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