Ir direto ao conteúdo

Ru·mo

Encontrar seu rumo é se deixar guiar pelos ventos. Ventos com nomes próprios, como Tramontana, Greco, Levante, Scirocco, Ostro, Libeccio, Ponente e Maestro; ou Gibli, Haboob, Karajol, Quas, Williwaw; ou Marim, Pampero, Santa Ana e Abrolhos; ou Norte, Sul, Leste, Oeste. Os rumos vêm dos ventos porque eles são, originalmente, os ângulos que existem entre as direções dadas pelas rosas dos ventos, aquelas que os marinheiros usam há séculos para se localizar (“rumo” veio do grego “rhómbos”, passando pelo latim “rhombus”). Os rumos são esses ângulos, e as direções apontadas pelas rosas dos ventos recebem o nome de “rotas”.

Os navegadores encontravam seus rumos e suas rotas a partir do que lhes diziam os ventos. “É bom viver e farejar a vida com o nariz”, escreveu certa vez um autor russo. Metaforicamente, nós também farejamos nossos rumos: metaforicamente, navegamos no mar da vida e vamos aonde o vento nos guiar.

Além dos ventos, a língua que nós falamos também serve de espécie de guia. O povo Guguyimidjir (ou Guugu Yimithirr, a depender da grafia), nativo da Austrália, não possui em seu idioma termos para direções que sejam relativos. Para eles, não existe isso de “atrás de mim”, “à minha frente”, “à esquerda”, “à direita”, nem mesmo “do lado de dentro”, “do lado de fora”, “embaixo”, “em cima”. Tudo para eles é norte ou sul ou leste ou oeste. Na língua que eles falam, as direções só podem ser absolutas.

Para o povo Aymara, que vive nos Andes, as questões espaciais são outras: para eles, o futuro e seus rumos se estendem atrás de cada indivíduo. O futuro fica à espreita, às nossas costas. E o passado fica à frente, diante de nós, onde podemos vê-lo. É diferente de tantas outras culturas e línguas que colocam o futuro à frente, como uma rota que aponta uma direção na qual podemos caminhar. As palavras que usamos nos fazem ver outros rumos e outras rotas; encontrar nosso rumo na vida é também se deixar guiar pela língua.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: