Ver·go·nha

Foi a partir da vergonha que Pero Vaz de Caminha descreveu pela primeira vez os habitantes nativos do Brasil: "Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas”. Ele insiste no assunto e, na mesma carta, conta de como olhava para as mulheres indígenas, com suas “vergonhas” descobertas, e não sentia, ele próprio, nenhuma vergonha.

O tempo passou, até que, no século 20, Oswald de Andrade olhou para o relato da falta de vergonha (ou relato da sem-vergonhice) de Pero Vaz de Caminha e não perdoou. Copiou o trecho da carta palavra por palavra, dividiu-o em versos e lhe deu um título sugestivo, irônico (as “gares” eram onde trabalhavam as prostitutas):

“As meninas da gare”Eram três ou quatro moçasbem moças e bem gentisCom cabelos mui pretospelas espáduasE suas vergonhas tão altase tão saradinhasQue de nós as muito bem olharmosNão tínhamos nenhuma vergonha.

“As vergonhas” não são a mesma coisa que “a vergonha”. A “vergonha” é o pudor, embaraço, constrangimento, é a vontade de se enfiar embaixo da mesa e desaparecer. “As vergonhas” são as partes que os portugueses e seus colonizados preferem não mostrar em público.

Uma palavra mais antiga para “vergonha” é “pejo”, e é assim que, no século 18, um censor português, António Ribeiro Soares disse ter ficado quando escutou as músicas que faziam sucesso nos bailes brasileiros:

"Mas não direi tudo quanto vi; direi somente que cantavam mancebos e donzelas cantigas de amor tão descompostas, que corei de pejo como se me achasse de repente em bordéis, ou com mulheres de má fazenda”.

Ele “corou de pejo”, isto é, ficou vermelho de vergonha com a música brasileira. Jean-Jacques Rousseau escrevia, pouco tempo antes, que “quem enrubesce já é culpado; a verdadeira inocência não tem vergonha de nada”.

“Vergonha" vem do latim “verecundia”, e a princípio está mais próxima do “respeitoso” ou “reservado”. Sua origem mais remota, no protoindo-europeu, vem de “observar”, “prestar atenção” ou “temer algo”. Nos usos modernos, porém, a “vergonha" varia. Ela nem sempre é esse observar atento, esse respeito temeroso; nem sempre é a “aurora do Sol da Virtude”, como diria um dicionário português do século 18. Na avaliação de alguns, a vergonha é uma falsa inocência.

Lupicínio Rodrigues assume: “A vergonha é a herança maior que meu pai me deixou”. Chico Buarque lança a pergunta e a deixa, sem resposta, no ar: “o que será que será/ […] o que não tem vergonha nem nunca terá/ o que não tem governo nem nunca terá/ o que não tem juízo”.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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