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Tó·xi·co

A palavra “tóxico” vem do grego, da expressão “toxikon pharmakon”, e significa “veneno para flechas”. É “pharmakon" que, na verdade, designa o veneno. “Toxikon” fazia referência ao arco e flecha. Mas foi provavelmente o segundo termo que ficou marcado porque “pharmakon” é uma palavra ambígua: ela é veneno e também remédio, perigo e cura. Ambígua como o que Britney Spears cantava 15 anos atrás: "With a taste of a poison paradise/ I’m addicted to you,/ don’t you know that you’re toxic?”, “Só de provar do paraíso venenoso/ estou viciada em você,/ você não sabe que é tóxico?”.

Muitas coisas já foram tóxicas no mundo. A cor verde, por exemplo: no século 19, foi moda na Europa usar roupas e decorar as casas com um tom de verde feito com arsênico. As pessoas adoeciam por causa de um vestido ou um papel de parede; crianças e idosos morriam de verde.

Outra história tóxica: do fim da Primeira Guerra Mundial, até o começo da Segunda, os alemães tinham a opção de escovar seus dentes com uma pasta radioativa. A propaganda prometia melhorar a defesa dos dentes. E outra: nos anos 1960, o Japão começou a exportar para os Estados Unidos um cartãozinho de urânio para ser colocado dentro do maço de cigarros; supostamente, a radioatividade que ele emitia reduziria os níveis de nicotina e outras toxinas, “melhorando a experiência do fumante”.

Recentemente, o dicionário inglês Oxford escolheu “toxic" como a palavra do ano para 2018. Além do hit de Britney Spears, além das toxinas, dos agrotóxicos e do lixo tóxico, o que os dicionaristas disseram ter em mente era a “toxic masculinity”, a “masculinidade tóxica”. É a masculinidade insegura, com medo de ser vulnerável; tão insegura que se torna destrutiva. Para ser mais idiomático, por aqui podemos dizer também que é a masculinidade do “boy lixo”. Do “boy lixo tóxico”.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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