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Ma·ra·cu·tai·a

Maracutaia poderia ser o nome de alguma fruta, mas não é — maracujá é fruta. Poderia ser o nome de uma ave, mas não é — maritaca é ave. Poderia ser o nome de uma dança — maracatu — poderia ser um estádio de futebol — Maracanã — poderia ser um chocalho — maraca — poderia ser a Maracangalha de Dorival Caymmi.

Maracutaia soa como muitas coisas boas, sem ser uma ela mesma. Segundo o dicionário, ela é uma “ação ilegal, geralmente resultante de conluio em área política ou administrativa”. Dois sinônimos para ela são “fraude” e “falcatrua”. Mas ela soa como algo bom; e é possível que sua origem tenha a ver com isso: o filólogo Geraldo Lapenda escreveu que, após perseguir as pistas que ligariam a palavra a uma origem em tupi, e não encontrar nenhum resultado seguro, acabou decidindo que o mais provável é sua formação ter sido “espontânea”. A maracutaia, segundo ele, foi criada por brasileiros que gostaram do jeito que essa combinação de sons encaixava na língua.

É espontânea, mas tem algum sentido: o “aia” do final, deturpação de “alha", nos remete intuitivamente a coisas pejorativas, “gentalha”, “canalha”, “gandaia”. Cada língua tem um estoque de barulhinhos que se tornam expressivos na mente do falante. É isso, por exemplo, que Augusto de Campos aproveita quando traduz o poema “Jaguadarte” (“Jabberwocky”, em inglês), de “Alice no país das maravilhas”:

Era briluz. As lesmolisas touvasroldavam e relviam nos gramilvos.Estavam mimsicais as pintalouvas,E os momirratos davam grilvos.

Não sabemos o que são essas palavras. Mas seus sons nos fazem intuir certas coisas, são expressivos para nós. Como “maracutaia”, que é pejorativo, mas que, fora de contexto, soa um pouco como uma coisa simpática. É cometer uma “ação ilegal”, uma “fraude”, uma “falcatrua”, mas com um pouco menos de seriedade. Tem até um certo gingado.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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