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Sa·ú·de

As saúvas são formigas, e diz-se que elas existem em excesso no Brasil: “pouca saúde, muita saúva, os males do Brasil são”, escreveu Mario de Andrade em “Macunaíma”. E então escreveu “Ai! que preguiça!”.

A preguiça não chega a ser considerada uma doença. Mas seus sintomas já tiveram outros nomes: na Europa da Idade Média, por exemplo, o sujeito muito dado à preguiça podia ser chamado de excessivamente “fleumático”, o que indicaria que seu corpo tinha uma superabundância de “fleuma” ou, simplesmente, “muco”. Muito muco, muita preguiça. As ideias de saúde variam.

“Saúde" é o que desejamos depois que alguém espirra. Isso muda de cultura em cultura. Na França, por exemplo, diz-se ao espirrante “à tes souhaits”, que traduz literalmente como “aos teus desejos”. E se a pessoa espirra de novo, vira “à tes amours”, “aos teus amores”.

“Saúde” é como brindamos, “cheers” é como brindam os anglófonos, desejando “alegrias”.

“Na saúde e na doença” é como muitos se casam, seguindo um modelo de texto cristão. A “saúde” vem do latim “salus”, que nos deu, entre outras coisas, nossas “saudações”. E, dentre as saudações, gerou também o nosso “salve”.

De “salus”, podemos ir mais longe no tempo e chegar na raiz hipotética “*sol-”, nesse idioma reconstituído que é o protoindo-europeu. Essa raiz abarca tudo aquilo que é “íntegro” e “inteiro”; é ela que está por trás da “solidez”, das “consolidações” e da “solenidade”. Tanto “são” como “salvo” remontam a ela. E, em inglês, deu em “health” (“saúde”) e “holy” (sagrado).

Uma curiosidade: é também essa “*sol-” que está por trás dos “hologramas”, termo cunhado pelo cientista Dennis Garber, em 1949: o “holo” veio do grego “hol”, que significa “inteiro” (e que remonta ao “*sol-”), e “grama”, do grego “gramma”, é aquilo que foi escrito, gravado.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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