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Té·dio

O substantivo “bore”, “tédio”, entrou para o inglês em meados do século 18. Antes disso, eles já tinham “tedium”, que, como o nosso “tédio”, veio do latim “taedere”, “estar cansado”, “não gostar de algo”. Para além do latim, a origem do tédio é desconhecida. Como é a de “bore”. Para esta última, no entanto, há uma hipótese.

Quando a palavra começou a ser usada, vinha definida por uma nacionalidade específica. O tédio, para os ingleses, era coisa de francês. “A French bore” é como diziam, “um tédio francês”. Estes são os primeiros registros escritos que temos da palavra:

“Sua última carta foi a mais alegre que já recebi de você — sem aquele maldito tédio francês”.

[“Your last letter was the most cheerful that I have received from you, and without that damned French bore”, carta de G. J. Williams, 1766.]

“Eu lhe envio um conjunto de cartas; se forem francesas, que Deus o livre do tédio”.

[“I enclose you a packet of letters, which if they are French, the Lord deliver you from the bore”, carta do Earl de Carlisle, 1767.]

“Tenho pena de meus amigos de Newmarket, que logo se verão entediados por esses franceses”.

[“I pity my Newmarket friends, who are to be bored by these Frenchmen”, carta do Earl de Carlisle, 1768.]

Supõe-se que o “tédio” ou “bore” entrou na Inglaterra pela via do “bourre”, termo francês para “enchimento”, como o colocado em roupas ou estofados. O tédio enche. Pode preencher horas, dias, semanas. Ou pode fazer com que a gente se encha deles: as horas, os dias, as semanas. Nem sempre é ruim: mais ou menos 300 anos depois dessas cartas, o artista plástico Andy Warhol diria “I like boring things”, “eu gosto de coisas entediantes”. E Walter Benjamin, “o tédio é o sonho do pássaro que choca os ovos da experiência”.

Por qualquer motivo que tenha sido, os ingleses pensaram nos franceses para definir melhor o tédio. Enquanto isso, do outro lado do canal da Mancha, os franceses pensaram nos ingleses para falar de comida: “cuisson à l’anglaise”. O “cozimento à inglesa”, preparo feito com água quente ou vapor. Bem ou mal, há quem se entedia com o mundo, quem se aninha com os ovos da experiência. E há os que sentem fome.

Sofia Nestrovski

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