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Ver·ti·gem

A vertigem é um movimento sem movimento. Pode ser a sensação de que a Terra parou e você continuou girando ou que, pelo contrário, a Terra acelerou e você, de repente, ficou para trás. A palavra tem a mesma raiz que “wrong”, “errado” em inglês (do protoindo-europeu “*wer-”). Um dicionário diz que, figurativamente, a “vertigem" é uma “loucura momentânea, tentação súbita, ato impetuoso de irreflexão”. Ela pode ser uma forma de erro, pode ser uma forma de desrazão. Vem de “vertere”, mesmo lugar que os “versos” da poesia.

A vertigem dá voltas — como os versos dos poemas, que param numa linha só para recomeçar na de baixo. Em latim, “vertere” significava “virar”, “voltar”, “trocar” e também “traduzir”. Quando traduzimos, vertemos uma língua em outra, como se verte a água de uma jarra para um copo. Traduzir pode ser uma maneira de fazer as palavras derramarem.

A vertigem verte e derrama. Um fragmento de poema de Safo dirige-se à deusa Afrodite (chamada por um de seus nomes menos conhecidos, “Cípris”) e diz:

Aqui, vós, Cípris, tendo colhidodelicadamente, em copos de ouro,néctar e festas:derramai.

Muito rapidamente, o poema de Safo faz a deusa Afrodite se aproximar de nós: o “aqui" do primeiro verso cria uma proximidade imediata onde antes havia distância. É uma aproximação muito veloz — melhor dizendo, é vertiginosa. Outra definição de dicionário, “vertiginoso”: “rápido”, “velocíssimo”. (Por coincidência, esse poema sobreviveu aos séculos gravado na lateral de um jarro do século 3. Ele também servia para derramar.)

Mas não basta dizer que a vertigem é veloz. Ela é mais do que isso. Assume muitas formas — algumas rápidas, outras imensamente lentas. Para ficarmos com um exemplo: “Vertigo” é o nome dado a um gênero de pequenos caramujos que andam muito vagarosamente sobre a Terra. São caracterizados por suas pequenas conchas em espiral, que têm de quatro a cinco voltas, a depender da espécie. Coisas que dão voltas, coisas que são vertiginosas: conchas, versos e a Terra, com todos nós.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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