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Ver·da·de

Não existe um verbo para a “verdade”. Para a mentira é fácil: “mentir”. Eu minto, tu mentes e ele mente mais que nós dois juntos.

Podemos “crer” ou “acreditar” numa verdade, “jurar” por ela, “assegurar” que esta, e não a outra, é a verdade verdadeira; podemos “garantir” que é verdade, “argumentar" em prol dela, e fazer tantas outras acrobacias quanto nossa mente e o limite dos fatos permitirem. Nenhum dos nossos verbos dá conta de “verdadear” uma verdade.

Para Montaigne, a verdade é como o centro de um alvo; atiramos nossas flechas em direção a ele, mas é mais fácil errar do que acertar. A verdade está lá, em algum lugar além de nós e bem no meio de muitas outras coisas que não são ela.

A verdade também não é a flecha. Nós não a produzimos: não “verdadamos”. Podemos ser sinceros ou honestos, podemos ter a intenção de sermos verdadeiros. Mas nossa “vontade e o destino andam tão desiguais/ que nossas intenções são desfeitas enfim./ Nosso pensar é nosso, mas não o seu fim” (“Hamlet”, na tradução de Lawrence Flores Pereira). Erramos o alvo. Ou acertamos sem querer.

Na origem, a verdade se confunde com a crença. A raiz mais antiga que os linguistas oferecem para ela é do protoindo-europeu: “*were-o-”, que é reconstruída a partir de, entre outros, o russo “viera”, “fé” ou “crença” e o antigo eslavo eclesiástico “vera”, “fé”. Podemos dizer que a crença e a fé eram os fundamentos da pré-verdade. E que eles dão a volta completa e nos fazem chegar nossa atual “pós-verdade”. Agora, nesse novo regime dos não fatos, o que conta são as crenças e crendices pessoais, e os apelos emocionais. A pós-verdade tenta “verdadear” o que não é verdadeiro; conjuga um verbo que não existe. Ela não mora no alvo, nem mesmo nas flechas. Ela joga outro jogo. Um que se ganha na base do grito.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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