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Men·ti·ra

A mentira tem perna curta, a mentira é difícil de engolir. Ela seria capaz de fazer seu nariz crescer, se você fosse um menino feito de madeira. Se você fosse um boi, ela seria uma conversa para te fazer dormir. Se, por acaso, você for inglês, ela é aquilo que existe só para você ver.

A mentira tem muitas faces e muitos nomes: são várias as expressões e termos que servem para falarmos dela: balela, caô, caraminhola, conversa de pescador, embuste, fábula, fake news, farsa, fraude, história da carochinha, impostura, invencionice, lenda, lenga-lenga, lorota, maranduba, pabulagem, poçoca, potoca, trapaça.

Há quem diga que tudo bem mentir se você cruzar os dedos antes. Esse gesto, que normalmente as crianças reproduzem, vem de uma antiga superstição europeia de que os dedos cruzados afastariam o pecado da mentira. Uma outra tradição europeia antiga — seus registros vêm da Idade Média — era punir os mentirosos arrancando-lhes os dentes (mas nenhum dos registros informa se esses mentirosos chegaram a cruzar os dedos antes). É dessa punição, supõe Câmara Cascudo, que vieram expressões como “fulano mente por todos os dentes” ou “se caísse um dente em cada mentira, já estava desdentado”. A mentira parece ter a ver com os dentes, não se sabe bem por quê. Talvez por serem eles os culpados de deixar que ela escape pela boca.

A palavra remonta ao latim “menda”, “um defeito, uma falha”; em português moderno, deu também nos “remendos”, ou na falta deles. A mentira é um furo, um rasgo, uma coisa quebrada. Numa origem mais remota ainda, “menda" vem do protoindo-europeu “*mend-”, um “defeito físico”.

Os pitagóricos, segundo Montaigne, diziam que “o bem é certo e finito, enquanto o mal é infinito e incerto” e que, portanto, “há mil maneiras de errar o alvo, e só uma de acertá-lo”. Montaigne interpreta que a verdade é o alvo; as mentiras são aquilo que o rodeiam. É mais difícil, portanto, falar a verdade do que mentir; é preciso ter boa mira e técnica para acertar a verdade em cheio. Nós às vezes evitamos a verdade porque ela é difícil, ou porque dói. Mas uma desculpa como essa não satisfaz todo mundo. Alguns — ou algumas — vão dizer que a mentira, até a menor delas, dói, “não me diga mentirinhas, dói demais”. Mas, aí, já não é mais Montaigne quem falou.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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