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Gra·ti��dão

Muitas coisas têm graça. Não só as engraçadas, como também as coisas graciosas, gratuitas e as gratificantes têm graça — está na origem delas, todas vêm do latim “gratia”. Do mesmo modo, está na origem da desgraça não ter graça (a desgraça é uma piada ruim). É curioso pensar que, com sentidos e usos tão diferentes, todas essas palavras com “graça" tenham nascido no mesmo lugar, junto com tudo o que é de graça, ou grátis. A “gratia” saiu do latim e se desenvolveu de maneiras diferentes em cada uma das versões onde aparece em português. Desde as coisas em “estado de graça”, até as pessoas que agradecem com “gratiluz”.

“Gratiluz” é uma variação não dicionarizada de “gratidão”, palavra que, em alguns nichos, vem tomando o lugar de nosso agradecimento mais convencional, o “obrigado/a”. “Gratidão”, diferente de um “obrigado”, não obriga ninguém a nada. Não cria contratos, cobranças nem laços, apenas declara um estado. Segundo o mapeamento do Google, as buscas por “gratidão” começaram a crescer no Brasil de 2012 para cá, com um ápice de pesquisas em dezembro de 2017 (supõe-se que por influência das festas de fim de ano). A “gratidão” apenas é — nem ao menos muda para se adequar à pessoa que fala, como mudam os “obrigados" e “obrigadas”. Ela instaura uma condição onde tudo é de graça ou feito por graça — como a “graça que vem de cima e vem de graça porque é a graça e é divina”, nas palavras de Jorge Mautner e Caetano Veloso.

Coisa que o nosso “obrigado/a” também faz, mas não quando está sozinho. É algo que apenas acontece quando seguido pelo “de nada” (ou um “não há de quê”, “imagina”), que o acompanha como que por necessidade. Porque para cada “obrigado/a” que dizemos, recebemos como resposta um “de nada” que imediatamente nos desobriga. É um combinado que temos como falantes, ou dois passos complementares de uma mesma dança — o “obrigado" toma a dianteira e o “de nada” completa o giro. Coloca graça na obrigação. Nossa forma mais convencional de agradecer é dançando.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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