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Au·to·ri·da·de

A “autoridade é um urso turrão”, diz um dos personagens de uma peça de Shakespeare. “Mas que frequentemente se deixa guiar pelo cheiro do ouro”, conclui. Isto é: por mais cabeça-dura que seja a figura de autoridade, ela ainda assim pode ser facilmente corrompida — só é preciso ter dinheiro. Um outro personagem, numa outra peça do mesmo autor, diz que a única autoridade verdadeira é a que um cão de guarda exerce quando late para um pedinte. “[Vês] o pobre diabo correr do vira-latas? Pois tens aí a imponente imagem da autoridade; até um vira-lata é obedecido quando ocupa um cargo” (tradução de Millôr Fernandes). Quem o diz é o Rei Lear — rei que se vê perdendo, cena após cena, a própria autoridade, até considerar-se inferior a um cão.

A autoridade é uma qualidade. Podemos atribuí-la a animais ferozes, podemos atribuí-la a pessoas (ferozes ou não). É possível ser a autoridade num determinado assunto; ser a autoridade de uma dada situação; ter autoridade para autorizar algo. É possível, também, ser “autoritário”: como um cão raivoso latindo para um pobre coitado.

Apesar de poder parecer, a autoridade não tem a ver com “auto”, o prefixo que faz as palavras se voltarem para si, como em “autocentrada” — coisa que, pelo menos na origem, a “autoridade” não é.

A palavra na verdade vem do latim “auctor”. Com o sufixo “-dade”, define a qualidade da “auctoritas”, isto é, da “invenção”, “influência”, “conselho” ou “domínio”. O “auctor” para os romanos era o “criador”, “gerador”, “progenitor”, “pai”, “construtor”, “fundador”, “professor”, “historiador” e, finalmente, “escritor”. “Auctor” vem do particípio passado do verbo “augere”, “aumentar”. Ele é, ao pé da letra, aquele que “faz crescer” — o que significa, na prática, algo muito diferente do que faz o sujeito “autoritário”. O “auctor” faz o outro crescer, como um pai pode fazer com seus filhos, um professor com seus alunos, um construtor com suas construções, um escritor com suas palavras.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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