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Pri·ma·ve·ra

A primavera chega, faz a vida nova brotar, e vai embora. Ela é, segundo a etimologia, apenas o “primeiro verão” (“primo” + “ver" em latim), a preparação para algo maior que virá. Mas para os romanos, e para os falantes de português medieval, as coisas eram diferentes: a “primavera” não era uma estação, não com este nome. O que havia no lugar era o “verão” e, em seguida, o “estio” (em latim, “ver” e “aestas”).

Essa nomenclatura durou até mais ou menos o século 16 — ainda vemos o português Gil Vicente (1465-1536) escrever que Deus fez o mundo, mas, como não queria que “nenhuma cousa tivesse perfeita duração sobre a face da terra”,

estabeleceu na ordem do mundo que umas cousas dessem fim às outras. E que todo o género de cousa tivesse seu contrário, como vemos que contra a formosura do Verão, o fogo do Estio, e contra a vaidade humana, a esperança da morte.

Na retórica de Gil Vicente, cabe dizer que o “verão” (ou, em nossos termos, a “primavera”) está para a “vaidade humana” como o “estio” (em termos atuais, o “verão”) está para a “esperança da morte”. É uma avaliação severa do que podem ser as estações.

É comum que, na cultura europeia e nas culturas colonizadas por europeus, se recorra às imagens das quatro estações para criar metáforas para a vida. Chamamos de “primaveras” as revoluções sociais ou políticas que chacoalham estruturas há muito tempo congeladas — a “Primavera dos povos”, de 1848 na Europa, ou a “Primavera árabe” e “Primavera feminista”, ambas deste século 21. Chamamos também de “primavera" os anos de juventude de uma pessoa. A poeta Adélia Prado (1935-), porém, faz uma ressalva:

A primavera passa e depois voltaE a mocidade passa e não volta mais

As primaveras nomeiam revoluções — e também se movem como revoluções, mas de outro tipo. Na origem do termo, a “revolução” se referia aos movimentos dos corpos celestes pelo céu, como a “revolução” de Saturno a cada 27 anos, chamada também de “retorno de Saturno”. A “revolução” nomeia o movimento que passa e depois volta. Revolucionárias, as primaveras seguem esse curso, e fazem a vida brotar, onde quer que haja estruturas congeladas.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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