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Vi·tó·ri·a

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), há aproximadamente 370 mil “Vitórias” no Brasil, 45 mil “Victórias”, 242 mil “Victors" e 422 mil “Vitors". Tudo somado, são um milhão e 79 mil “vitoriosos” no país, ou 0,75% da população total. Em 1990, tínhamos que nos contentar com 255 mil brasileiros nomeados assim, e em 1980, menos ainda: 61 mil.

Na mesma década de 1980, mas do outro lado do Atlântico, os ingleses lançavam a comédia musical “Vitor ou Vitória”, na qual a atriz Julie Andrews interpreta uma mulher que finge ser um homem fingindo ser uma mulher, Vitória virando Vitor virando Vitória de novo — de Vitória a Vitória, chega-se praticamente ao mesmo lugar, mas com a certeza de que algo mudou.

De volta ao Brasil: nós aqui contamos ainda com uma capital de estado “Vitória" (a do Espírito Santo) e um time de futebol, o “Esporte Clube Vitória”, que leva no nome aquilo que todos os times desejam. Temos também uma música tema da vitória, composta a pedido da Rede Globo para as corridas de Fórmula 1, e que muitos conhecem como “música do Ayrton Senna”.

Todos esses nomes remetem ao substantivo “vitória”, que veio do latim “victoria”, com o mesmo sentido. É o particípio passado do verbo latino “vincere”, que significa “vencer”. Mas em português, ao contrário do latim, o particípio passado de “vencer” é “vencido" — justamente o oposto do que é a “vitória”. Pelo motivo que for, o latim entende o verbo pelo lado dos vencedores, enquanto o português sugere que, sempre vencendo, acaba-se “vencido”, como uma fruta que, de tanto amadurecer, estraga. Por estranho que seja, podemos dizer que ela “venceu”, passou do ponto.

“Perder”, em latim, “perdere”, é “dar completamente”, “entregar tudo”. Há quem chame isso de generosidade, uma virtude. Do outro lado, “ganhar” vem da mesma raiz de “ganância”: há quem chame isso de pecado. Valores à parte, a questão é que “vencer”, no fim das contas, tem um gosto ambíguo. Como no filme “Vitor ou Vitória”, todo nome ou palavra tem em si uma dose de ambiguidade. Ou, melhor dizendo, todo “vencedor” é quase um “vencido”; e todo “vencido” um dia já venceu demais.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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