Mor·te

As coisas abstratas também morrem. Unidades de medida, por exemplo, já morreram aos montes — “côvado”, “fanga”, “toesa”, “tiro de besta”, “arrátel”. Alguém se lembra delas? Ou que tal o termo “bovata”, usado até o século 16 na Grã-Bretanha para medir as distâncias dos campos? Cada “bovata" era a quantidade de terra que um só boi (“bos” é “boi" em latim) conseguia arar durante a estação de aragem. Caiu no esquecimento.

Formatos morrem: disquetes, VHS, fitas-cassete e tantos outros. Os CDs estão em estado terminal. Os vinis, ao que parece, tentam voltar dos mortos.

Supõe-se que a morte venha de “*mer-”, protoindo-europeu para “machucar" ou “morrer”. A origem é hipotética. Na vida como na linguística, supõe-se que a morte venha de algum lugar, quando, mais provavelmente — diz Câmara Cascudo — a morte está em nós, em nosso “fatalismo orgânico”. Tudo o que existe uma hora tem que acabar, tudo o que é vivo tem que morrer.

Mas segundo a teoria da “apoptose” ou “morte celular programada”, é a morte inerente que dá forma e possibilidade à vida. Desde os primeiros estágios do embrião, os seres multicelulares se formam porque as células que o compõem vão morrendo organizadamente. É graças a isso que, por exemplo, nossos dedos ganham contorno e se separam uns dos outros. A morte das células nas mãos e nos pés cria o espaço vazio que permite que mãos sejam mãos, e que nossos pés não se pareçam com os da Turma da Mônica. É por causa dessas mortes que temos os contornos que temos, do lado de dentro e do lado de fora. É um trabalho constante da morte — dura uma vida inteira. Aliás, mais do que simplesmente desenhar nossa forma, nossas células continuam morrendo para que nós continuemos vivos. Até o momento em que param. É apenas na grande morte final que paramos de morrer aos pouquinhos.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: