Cri·se

A crise separa. Em grego, “krisis” era o momento de virada de uma doença: a partir dela, seria possível saber se a pessoa se recuperaria ou não. A crise distingue: antes dela, a doença tinha uma cara, depois dela, passa a ter outra. A crise é irmã da crítica: vem de “krinein”, verbo para “separar”, “distinguir” e, como faz o crítico, “julgar”. Em protoindo-europeu, tanto “crise” como “crítica” remontam a “*krei-”, “peneirar”, “passar pelo crivo”.

Santo Isidoro de Sevilha, que, no século 7, escreveu o primeiro livro de etimologias do Ocidente (muitas das quais, fantasiosas), disse, sobre a crise e a crítica: “acredito que os médicos se refiram a certos dias como ‘críticos’ porque esse nome lhes foi dado para ‘julgar’ o estado da doença; pois eles julgam a pessoa e decidem se seu veredito deve castigá-la ou liberá-la”.

Na medicina medieval, o crivo, a crítica, e os critérios eram termos referentes à casa astrológica de Virgem (casa 6 do mapa astral). Dentro dessa tradição, que lia doenças na língua dos astros, a casa virginiana correspondia, no corpo humano, ao intestino. É o órgão que seleciona o que pode permanecer no corpo e o que deve sair. Intestino: órgão crítico.

Continuando essas pesquisas, o médico e astrólogo inglês Nicolas Culpeper (1616-1654) escreveu que a “crise" entrou na medicina como metáfora vinda do campo jurídico: porque o momento de crise (ou “momento crítico”) é quando o homem adoecido advoga por sua vida e sua natureza, contra as acusações da doença e diante do médico-juiz.

Pedir o julgamento do médico num momento de crise é colocar-se num estado de precariedade: “precária” é a “prece”, é depender do outro. Etimologicamente, pelo menos, é assim: “*prek-”, em protoindo-europeu, queria dizer “pedir”, “perguntar”. A crise pode ser o momento de maior precariedade — como pode ser o momento de maior alcance das críticas. E não só no que diz respeito ao corpo humano.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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