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Mis·té·ri·o

Mystèrio”, “mistêrio”, “misterio”: antes de ser padronizado com “i” e acento agudo no “e”, o “mistério” já teve algumas faces diferentes em português. E tudo bem — a princípio, a face do “mistério" é oculta. Fechamos os olhos para vê-la melhor (“mistério" vem do grego “myein”, fechar). Há também quem depreenda daí que “fechamos a boca” e meditamos em silêncio, porque sobre o mistério não se pode falar.

O mistério pode aparecer no silêncio alheio, como na frase de Blaise Pascal (1623-1662): “o silêncio eterno desses espaços infinitos me assombra”. Alguns etimólogos supõem que o termo “mudez” venha dessa mesma raiz (os “míopes" são os que têm os olhos constantemente fechados, “myein” + “ops”, “olho”). Não é só o silêncio alheio que nos assombra — os outros são, muitas vezes, misteriosos só por existirem, como no verso do poeta inglês William Wordsworth (1770-1850): “o rosto de cada pessoa que cruza por mim é um mistério”.

Os “mysteria” em grego eram os “ritos secretos” e as “doutrinas" dos iniciados. São eles, por exemplo, os “místicos”, que se relacionam com os mistérios da fé, bem como os “esotéricos”, que seguem o caminho espiritual interior (do grego “esotero”, “mais para dentro”). O contrário destes são os “exotéricos”, que se baseiam na face externa das coisas. (Uma outra interpretação diz que os “esotéricos" são os iniciados nos cultos secretos; os “exotéricos”, não).

Um “mistério” não é um “enigma”. Este último veio do latim “aenigma”, uma “charada”, que por sua vez, remonta ao grego “ainissesthai”, “falar de modo obscuro”, “falar por charadas”. “Ainos” em grego é um “conto”, ou uma “história”. Um enigma, como uma charada, pode ser decodificado. Um mistério, para quem for iniciado nele, também: o mistério seria, quem sabe, o enigma do místico.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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