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I·ro·ni·a

Ironia é dissimular, mas não é mentir; é falar o contrário do que se pensa, mas não é cair em contradição. É poder afirmar absurdos, sem abrir mão de critérios. Na ironia, as palavras não são quem elas dizem ser.

É um jeito complexo ou confuso de usar as palavras, a depender de quem usa. Prova disso é que várias das situações que são chamadas de irônicas não sejam verdadeiramente irônicas. Muitas delas são apenas coincidências — algumas mais engraçadas e outras, tristes. Por exemplo: na canção “Ironic” (1995), Alanis Morrisette enumera uma série de situações que seriam, supostamente, irônicas.

“It's like rain on your wedding dayIt's a free ride when you've already paidIt's the good advice that you just didn't take”

“É como chuva no dia do seu casamentoÉ uma viagem grátis que você pagouÉ um bom conselho que você não aceitou”

Mas o nome disso não é ironia, é azar. Em defesa da cantora, houve quem dissesse que a ironia maior era a canção não ter ironia alguma — como se ela tivesse dado a volta completa no termo e precisasse passar pela falta de ironia para chegar até ela. Foi o que disseram. Não necessariamente é verdade (mas também não chega a ser uma defesa irônica).

A inverdade não é sempre irônica, a má sorte tampouco, e algumas coincidências são só coincidências. Mas é difícil discernir o que é mesmo irônico. Em inglês, tem até um site dedicado a isso: www.isitironic.com (algo como “isto-é-irônico?-ponto-com”). Nele, as pessoas podem votar para decidir o que cabe e o que não cabe no termo.

De tanto se falar em ironia, surgiram também as páginas dedicadas ao chamado “humor pós-irônico”. É uma outra espécie de volta completa na palavra: o humor pós-irônico vem do cansaço com o excesso de ironia, e se exibe como um desejo de ser novamente genuíno (se é que um dia já foi).

As palavras e os desejos vão mudando. A “ironia” vem originalmente do grego “eironeia”, que significa “dissimulação”. O “eiron" das comédias gregas era o sujeito que se fazia de desentendido para vencer seu oponente, o pretensioso “alazon”, que fala mais do que faz e finge que sabe de tudo. É aí que o eiron, ao se diminuir, acaba sendo maior.

Algum tempo depois, mas ainda na Grécia, Sócrates surgiria como primeiro sujeito “irônico” da filosofia, como se convencionou dizer. Isso porque ele era visto fazendo perguntas aparentemente ingênuas ou sem propósito, mas que, no fim das contas, desconstruíam o argumento de quem se achava muito esperto.

A ironia é a vitória disfarçada, a força discreta dos pequenos sobre os exibidos. O sujeito irônico não alardeia seu humor. Não se deve confundir a ironia com o sarcasmo, seu primo fanfarrão. A ironia é difícil de perceber. E de derrotar.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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