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Cam·pa·nha

Ao longo da história das línguas, há palavras que se esvaziaram. Como um ator que, de tanto interpretar papéis diferentes, acaba sem saber quem ele é, certas palavras dão parte de sua identidade em troca de uma flexibilidade maior — em troca de mais papéis.

A identidade original da “campanha" é o “campo”. É daí que vem no latim, “campania”, “campus”. Mas quem se lembraria de “olhar os lírios” de uma “camp-anha” publicitária, militar ou eleitoral? São coisas muito diferentes umas das outras e nenhuma delas nos faz pensar diretamente em campos; tampouco nos lembramos deles quando dizemos que um determinado jogador ou atleta fez uma “boa campanha” numa série.

Podemos fazer um exercício imaginativo: em algum momento incerto, um grupo de falantes de latim pode ter olhado para um campo aberto e pensado no movimento que fariam para atravessá-lo. Pode ter sido assim que surgiu a “campanha”. Então, o tempo foi passando e os usos foram se multiplicando. Outros movimentos remetem a algo parecido com esse esforço e, assim, foram sendo chamados de “campanha” também. A imagem original — percorrer o campo aberto — já não era mais necessária. A palavra tinha se esvaziado, se transformado numa coisa abstrata: usamos ela para nos referir a um esforço contínuo ou combinado em direção a um objetivo, pouco importa qual o ambiente onde ocorre. “Campanha”, nesse sentido, é uma metáfora: saiu de seu lugar de origem (o campo) e foi se deslocando para outros que lhe oferecessem uma ideia parecida de movimento.

As línguas se modificam através de metáforas como essa. É bom lembrar que elas existem. Caso contrário, confundiríamos “campanha” com “camponês”, só porque os dois vêm do campo. Como vêm os “champignons”, ou o “champanhe”.

Com essas palavras, vislumbramos algo de como as línguas funcionam: as “campanhas” fizeram um longo caminho, partindo de um fenômeno real em direção a uma ideia abstrata. O caminho dos “champignons” e do “champanhe” é outro: são parentes da “campanha”, mas têm esse nome simplesmente porque vieram do campo ou, mais especificamente no caso da bebida, da região de Champagne na França. O mesmo vale para o “pão de campanha”, que tem esse nome por causa de sua região de origem, mas que pouco tem a ver com as “campanhas” dos políticos, dos exércitos, dos publicitários. “Campanha” (o pão) e “campanha” (o movimento): chegamos na mesma palavra, numa mesma língua. O que não quer dizer que chegamos ao mesmo sentido.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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