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A·par·ta·men·to

Se o “funcionamento" é o resultado do que funcionou, o “posicionamento”, do que se posicionou e o “esclarecimento”, do que se esclareceu, então o “apartamento” só pode ser o fim daquilo que se “apartou”. Nesse caso, a lógica corresponde, sim, aos fatos: é essa a origem do termo em latim, particípio passado do verbo “appartere”. De “ad-” + “partem”, “aproximar-se da parte” — quem se aproxima da parte se afasta do todo. É para os apartamentos que nos retiramos quando queremos ficar longe dos outros.

Um dicionário de português do século 18 oferece como sinônimo de “apartamento” a palavra “solidão”. Isso porque os “apartamentos” também podiam ser os aposentos particulares de uma pessoa dentro de uma casa compartilhada.

Além da “solidão”, há outros sinônimos possíveis para “apartamento”: “retiro”, que nada mais é do que o substantivo que resta para quem se “retirou”; ou “aposento”, do verbo “aposentar”, que em português antigo já foi “apousentar”, isto é, o lugar onde se pousa e, quem sabe, onde se repousa.

As nossas “casas” vieram da palavra para casebres em latim — “casa”, idêntica na escrita. Para eles, a casa propriamente dita chamava-se “domus”, o lugar onde moravam o “dominus” e a “domina”, “dono” e “dona”. É do “domus” que recebemos as palavras “doméstico” e “domicílio”, por exemplo. Mas é também dele que veio a “dominação” — como se dominar um território fosse fazer dele sua casa, ou uma de suas muitas casas.

As casas latinas apontam para fora, para a “dominação”; os “apartamentos” apontam para dentro, para o retiro e a solidão. São quase o contrário um do outro. Mas o “lar”, por sua vez, não aponta nem para fora, nem para dentro: aponta para o fogo das “lareiras” e para os deuses. Os “lares" eram deuses domiciliares romanos: os responsáveis, pelo menos na língua, por fazerem das nossas moradas (quer em apartamentos, quer em casas) um “lar”.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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