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Má·gi·ca

A mágica é o poder de fazer coisas no mundo. “Magia" e “mágica" vêm ambas do protoindo-europeu “*magh-”, “ter poder”, “ser capaz”. Dessa mesma raiz vieram as máquinas, os mecânicos, o verbo “may" do inglês (“poder”, “ter a permissão para”, “ter a possibilidade de”) e os magos. De “facere”, “fazer" em latim, vieram os feitiços. As bruxas são mais misteriosas: ninguém sabe de onde veio seu nome.

Pelas máquinas ou pela mágica, faz-se algo com o natural ou, se quiserem, com o sobrenatural. O “natural” só nasce: remonta a “*gene-”, “parir”, “dar à luz”. No caos primordial, o mundo natural é sonolento e amplo: “caos” remonta ao protoindo-europeu “*ghai-”, bocejar. Em seu livro sobre a magia natural, o italiano Giambattista della Porta é retratado na capa iluminado pelo sol (pela luz do conhecimento); acima, uma representação do caos. É para organizar o caos que ele usa seus conhecimentos mágicos: isso inclui, por exemplo, saber fazer enxertos em plantas.

A magia pode ser muitas coisas: para Della Porta, cabia nessa categoria a agricultura, o embelezamento feminino, a arte mnemônica, a geometria, a alquimia, o uso do magnetismo e de tintas invisíveis e mais um punhado de categorias.

No século 7, em Sevilha, Santo Isidoro definia — ou melhor, censurava — como magia a astrologia, os horóscopos, a necromancia, a adivinhação, o uso de amuletos e também as ligaduras cirúrgicas, que fecham feridas.

Também podem ser considerados mágicos os números e as palavras, desde que colocados numa certa ordem ou usados em determinadas ocasiões. Com os primeiros, temos, por exemplo, os “quadrados mágicos”, que aparecem em muitas culturas em amuletos ou desenhos sagrados (neste link em inglês, há alguns exemplos ilustrados). Neles, os números de cada linha, coluna ou diagonal, chegam sempre à mesma soma. Este, de 3x3 é um dos mais simples (o resultado é 15):

4 9\u0009 2

3 5\u0009 7

8\u0009 1\u0009 6

E temos também as palavras mágicas, como “abracadabra" ou “abra-te sésamo”. Ambas têm origens incertas. A primeira aparece num livro do século 3 d.C., em latim, mas provavelmente já era usada desde antes. E “abra-te sésamo” foi inventada por um francês no século 18 na versão traduzida (e, em parte, reinventada), das “Mil e uma noites”. Talvez ele estivesse se referindo à semente de gergelim (“sésame”, em francês), que libera um seu óleo natural quando se abre. Talvez estivesse invocando termos da Cabala, “šem”, “šem-šamáįm”: o “nome” (de Deus) ou “nome do céu”. Talvez fosse uma corruptela do árabe “simsim”, um termo literário e raro para “portão”. Ou talvez ele simplesmente achou que soava bem. Com tudo o que se diz sobre etimologias, é bom lembrar que, às vezes, é assim que a língua muda: porque as pessoas preferem o que soa bem.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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