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Re·mé·di·o

No final do século 19, na Nova Zelândia, um arquiteto e psicólogo chamado Benjamin Betts publicou o livro “Psicologia geométrica: ou a ciência da representação”. Sua ideia era traçar diagramas que indicassem o bom funcionamento da consciência; a partir desses desenhos, seria possível conhecer melhor a mente humana e os métodos para curá-la. A proposta passou batida. Mas o resultado a que ele chegou é interessante se pensado como arte: seus desenhos fazem nossa consciência se parecer com flores.

O que Benjamin Betts quis criar eram remédios derivados de medidas. É um percurso parecido com o que a etimologia da palavra faz. “Remédio” vem do latim “remedium”, que remonta à raiz “*med-”: em protoindo-europeu, queria dizer algo como “tomar medidas”. Essa mesma raiz é oferecida como origem dos verbos “acomodar”, “meditar”, “moderar” e dos substantivos “medicina”, “modos” e “modelos”.

“Remediar” uma pessoa, livrá-la de um mal, pode ser uma forma de reforçar medidas perdidas. Já os “venenos”, agindo no sentido contrário, são o que fazem as medidas se perderem: “*weg-”, no protoindo-europeu, significa “ambicionar”, “desejar”, “ir além”. O remédio restaura, o veneno rompe.

Mas essas medidas dos remédios não são literais; têm mais a ver com operações do pensamento do que com fitas métricas. Para esse outro sentido mais concreto de “medir", vale a raiz “*me-” do protoindo-europeu. É dela que vêm os termos “metro”, “simétrico”, “semestre”, “parâmetro”, “mês" e “menstruação” (“menstruus" queria dizer “mensal" em latim).

Às vezes, porém, os diferentes sentidos de “medir" se confundem. Um dicionário português de 1728 traz, sob o verbete “remêdio" (com acento circunflexo em vez de agudo — a língua muda!), o seguinte aforisma: “com mà gente, he remedio muyta terra em meyo”, isto é, “com gente má, o remédio é ter muita terra de permeio”. Se quisermos, podemos misturar os sentidos: diante de gente má, vale medir melhor a distância que os separa.

Quando dizemos que “o tempo é o melhor remédio”, também pode ser interessante pensar assim. Não é só que o tempo serve de cura: é que, nós, num primeiro momento, medimos a situação e ela nos parece grande demais; mas podemos medi-la de novo, mais tarde, e aí ela já nos parecerá pequena, insignificante até. Nós medimos e remedimos: e o que fazemos, afinal, é remediar.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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