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Ar·qui·te·tu·ra

O “arquiteto” é o “grande construtor” ou “líder dos construtores” — do grego “arkhi” + “tekton”. “Arkhon”, palavra grega de origem desconhecida, é o “chefe”, “líder” ou “primeiro" de alguma coisa: como o “arqui-inimigo” é o “grande inimigo”, o “arcanjo” é o “maior dos anjos” e “anarquia” é o governo “sem líder”. Mas voltando ao “arquiteto" e indo mais longe na história da palavra, vemos que as coisas tendem a ficar mais amplas — não mais o “grande construtor”, ele agora é o “grande fazedor”. Porque “tekton" vem do protoindo-europeu “*teks-”, que significa “fazer” ou “tecer”. Dessa raiz vieram os “tecidos”, “textos”, “contextos” e “texturas”, bem como as “técnicas”, “tecnologias" e, finalmente, as “sutilezas”, as tramas mais bem-acabadas.

Pela origem do termo “arquitetura”, o objeto de trabalho do “arquiteto" é vazio — etimologicamente, ele apenas “faz”, não se diz o quê. Mas faz melhor do que os outros: é o maior dos fazedores, o líder de todos eles (uma nota: no começo do século 20, o crítico russo Viktor Chklóvski diria que “as pessoas que sabem fazer seu trabalho sempre são boas pessoas”).

Aliás, é esse sentido sem objeto que aparece quando usamos o verbo “arquitetar”, que não é propriedade exclusiva dos arquitetos de profissão. Qualquer um pode arquitetar projetos, planos, sonhos, mudanças, estratégias.

À sua própria maneira, até a Terra arquiteta, com suas placas tectônicas. Elas também vêm de “tekton”— a arquitetura tem primas geológicas.

E Deus — dentro do cristianismo, pelo menos — tem sua figura associada com a arquitetura há tempos. No século 13, São Tomás de Aquino escreveu:

“Deus, que é o princípio original de todas as coisas, pode ser comparado a tudo o que existe na criação, do mesmo modo que um arquiteto pode ser com seu desenho”.

Depois de Deus e o mundo, falta ainda falar da Pantera Cor-de-Rosa. Num dos primeiros episódios da série da década de 1960, chamado “The pink blueprint” (“a planta rosa”), a pantera encarna uma arquiteta no sentido mais estrito da profissão. Ela traz nas mãos a planta de uma casa cor-de-rosa e, ao longo do episódio, trabalha para que ela seja construída. Mas para conseguir o que quer, ela também arquiteta manobras e truques, no sentido menos profissional da coisa, e mais Pantera Cor-de-Rosa.

Sofia Nestrovsky é mestre em teoria literária pela USP e colabora para revistas como Piauí, Quatro cinco um e Cult.

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